De uma maneira ou de outra: a política estadunidense na encruzilhada

O sistema bipartidarista estadunidense está em quebra. O Partido Republicano já não existe – tanto em substância como em forma. O Partido Democrata se transformou por defeito no partido do status quo. De uma maneira ou de outra, com quem chegue a passar, a próxima administração será efêmera, e poderá tanto prolongar o impasse geopolítico de Pax estadunidense como escolta-la para um declive abrupto[1].

 

Conforme a temporada política nos Estados Unidos esquenta, cabe-nos considerar alguns dos fundamentos da política estadunidense e sua política – algumas das quais com implicações em longo prazo para as relações internacionais. Neste artigo, eu as enumerarei. Para evitar as armadilhas da predição, nas quais todas as ciências sociais frequentemente caem, é importante realizar duas coisas: primeira, analisar a situação atual sob a perspectiva de longo prazo da história e, segundo, examinar cenários alterantivos para o médio prazo.

Com o olhar de longo prazo da história, para uma boa perspectiva, permita-nos considerar a antiga Roma. A Roma republicana deu marcha ao Império quando as instituições republicanas e a cultura política republicana não podiam lidar mais com os desafios da expansão global e as eventuais extralimitações. Durante os primeiros 500 anos, Roma foi uma austera e bem organizada república predadora (justo como os Estados Unidos têm sido uma democracia rapaz desde sua fundação), sempre crescendo: para os segundos 500 anos, havia se transformado em um império afluente que chegou a seu ponto culminante, declinou e entrou em colapso. Dos 150 imperadores, só cinco foram considerados realmente bons (por longe o mais atrativo foi Marco Aurélio). Bastante cedo em sua fase imperial, Roma logrou sobreviver a alguns loucos. Suas palhaçadas são recordadas até hoje. Seguido ao perverso Calígula, Nero foi o mais errático e corrupto. Focalizo em Nero só por uma razão – uma que ressoa hoje. Ele foi cruel e arbitrário. Os romanos suspiraram com alívio depois de sua morte, mas um deles notou que algo fundamental havia mudado.

Publius Cornelius Tacitus era um senador romano e um historiador do Império e isto é o que escreveu (estou tirando o pó de meus antigos livros de latim de minha escola secundária):

Finis Neronis ut laetus primo gaudentium impetu fuerat, ita varios motus animorum non modo in urbe apud patres aut populum aut urbanum militem, sed omnis legiones ducesque conciverat, evulgato imperii arcano posse principem alibi quam Romae fieriUma tradução ao português seria: “Bem-vinda como tem sido a morte de Nero na imediata emoção de todos os que se regozijaram, não obstante, levantou não só voláteis paixões na capital entre os senadores, a cidadania e os militares da cidade, mas também em todas as legiões e seus comandantes: o segredo do poder foi revelado, que um imperador pode ser fabricado em outra parte fora de Roma”. O negrito é meu porque considero que são umas linhas brilhantes e perceptivas. Nero havia sido desafiado por gente de fora de Roma e levado a suicidar-se. A partir daí, os governantes romanos frequentemente vieram de fora da classe dirigente da capital – principalmente foram aventureiros, especuladores e ambiciosos comandantes militares. Não só a república sucumbiu ao império, mas o império caiu preso dos energúmenos – enérgicos forasteiros possuídos por um endiabrado fervor.

Avancemos rapidamente até Donald Trump, o veemente magnata que tomou os Estados Unidos de assalto. Triunfou em orquestrar a aquisição hostil de um partido indisciplinado – o Antigo Grande Partido (GOP, em sua sigla em inglês) de Abraham Lincoln, Theodore Roosevelt y Dwight Eisenhower. O Partido Republicano o merecia havia tempo, havendo mostrado maior habilidade para impedir o governo que para governar propriamente. Durante as últimas eleições primárias presidenciais, apresentou demasiados candidatos fracos, defensores de interesses criados mas que simulavam dar voz a grupos sociais que a globalização liberal havia marginalizado, em particular, a classe média em decadência e muito especialmente os varões brancos cristãos. Estes aspirantes presidenciais só lograram ridicularizar-se uns aos outros e finalmente aplanar o caminho para um forasteiro mais genuíno: um magnata de boas raízes que não necessitava de patrocinadores para financiar sua campanha e que estava disposto a dar voz estridente à ressentida pequena burguesia. De fato, o principal suporte de Trump consiste no lamento de um grupos ao qual a história está por arrasar. Trump conseguiu transformar um partido estabelecido (hoje destruído) em um movimento com uma relevante estreita mas extremista base social: supremacistas brancos, xenófobos, nativistas, nacionalistas e isolacionistas. Com essa base, ele busca assalta a presidência como assaltou o GOP. Mantendo-se os demais fatores idênticos, não é provável que ganhe. Mas se manterão os demais idênticos? Carece de um centro organizacional com experiência, de aliados e patrocinadores poderosos e do apoio de consideráveis elites. Mas um grande escândalo entre os Democratas, um evento catastrófico em solo estadunidense, ou o estalido severo de uma guerra aberta em algum ponto quente do mundo, mudaria o panorama a seu favor. Inclusive se, e quando, ele falhar, o dano já estaria feito.

Como em Roma, logo após a morte de Nero, nos Estados Unidos da América o segredo do poder foi desvelado, que um presidente pode ser fabricado em outra parte além de Washington, por um homem suficientemente audaz ou por um bando de energúmenos emergidos da onda do medo e descontentes populares para com as elites e instituições existentes. A história não se repete a si mesma, mas rima (Mark Twain). Adolf Hitler errou miseravelmente em seu primeiro intento de tomar o poder (o Putsch da Cervejaria de 1923). Mas dez anos depois, sob circunstâncias mais nefastas para a República Alemã, ele triunfou, esta vez dentro dos limites dos procedimentos estabelecidos e com o acompanhamento das massas.

De uma forma ou de outra, como na Roma pós-republicana ou na Alemanha pós-republicana, assim também nos Estados Unidos pós-republicanos: a aposta está feita para os romanos, a bola está em jogo para os alemães e para nós… os dados ainda estão no ar! O tempo da história se acelerou. O que levou 500 anos para a Pax Romana se esfumaçar, agora poderia levar somente 50 para que a pax estadunidense faça o mesmo.

De uma forma ou de outra, do lado Republicano, se Donald Trumo for derrotado, o GOP pode ser derrubado com ele e perder o controle de tudo, ou ao menos da metade do Congresso. Poderia chegar a ser sua pior derrota eleitoral desde 1964, quando Barry Goldwater perdeu para Lyndon B. Johnson. Há, inclusive, um cenário pior para o GOP: se Donald Trump ganhar em novembro, o partido terá de viver com suas desastrosas políticas por quatro anos e carregar com este lastro pra sempre. Trump fará dos Estados Unidos um país menor e mesquinho. De uma forma ou de outra, o Partido Republicano, assim como o conhecemos, está morto.

O outro pólo do andrajoso sistema bipartidarista estadunidense – o Partido Democrata – tem distintas problemáticas, e pelo momento sobreviverá a insurgência da ala direita do espectro. O partido finalmente cerrou filas atrás da candidata Hillary Clinton, mas com dentes cerrados e principalmente para bloquear Trump. Os Democratas também se dividiram e suportaram sua própria insurgência, desta vez desde a esquerda no movimento que rodeou o senador Bernie Sanders. Em minha opinião, o movimento não se dissipará, pelo contrário, crescerá, especialmente sob seu futuro governo, se chegar a passar.

A sra Clinton está longe de ser uma figura amada, exceto por seus colaboradores e cortesãos, ela foi uma formidável e incessante perseguidora do prêmio presidencial a estabelecer uma máquina eleitoral que é mais efetiva, com relação a sua própria operação do que com os objetivos para os quais se aplica, salvo a busca do poder por ele mesmo. A Fundação Clinton é um bom exemplo: é um inteligente andaime para escalar rumo ao poder, com o trabalho caridoso como efeito colateral. Mais ainda, a natureza instrumental de sua personalidade e suas ações são demasiado evidentes como tais e, por fim, incapazes de despertar entusiasmo. Dado o desbaratamento Republicano, sob um governo de Clinton, o Partido Democrata se transformará no partido da classe dirigente e do status quo, em que pese açucarar a manutenção do sistema com um número de iniciativas progressistas que não irão ao coração dos problemas que afligem o capitalismo: severa desigualdade, avanço da automação, decadência da infraestrutura, crescimento alimentado na base do endividamento e a pobre educação do povo. Por trás do aparato de Clinton, estão os pilares da classe dirigente: os meios de comunicação, os setores altamente sofisticados em matéria tecnológica, o mundo financeiro e, certamente, Hollywood. É um Ancien Régime (Antigo Regime) fazendo gestos reformistas, com Maria Antonieta transformada em analista política.

Um futuro governo de Clinton indefectivelmebte fará retroceder a insurgência de extrema direita e fortalecerá algumas instituições (nenhuma democrática, por certo) que conterão a temeridade populista, em particular, os militares e a Corte Suprema. Isso poderá dar tempo e espaço para que um movimento mais racional e verdadeiramente progressista se forme e cresça. Isso é apenas um vislumbre de um espectro de esperança: a reforma dos Republicanos em partido conservador em vez de ser uma facção neofascista e a emergência de uma bem organizada e atualizada esquerda com o sim dos Democratas.

De uma forma ou outra, no médio prazo, o sistema político estadunidense lutará por seguir mancando e o país confrontará uma série de impasses estratégicos ao redor do mundo. No interior, os partidos dos Estados Unidos poderá ser capturados por movimentos, enquanto que no estrangeiro a arena internacional será testemunha de múltiplas confrontações entre as nações muito manos hábeis que antes para despertar apoios dos blocos ou chegar a consensos razoáveis sobre os desafios que nos afetariam a todos. Em termos geopolíticos, regressamos a um velho “equilíbrio de poder”, a Realpolitik e ao universo hobbesiano do conflito generalizado.

De uma forma ou de outra, o próximo governo estadunidense, por qualquer dos partidos (o que resta deles) será provavelmente uma presidência de um só período: se for pelos assim chamados liberais, terá uma cobertura de simulada correção política; se for pelos denominados conservadores, terá como cobertura a caça às bruxas e bodes expiatórios. Enquanto isso, em muitas partes do mundo a vida dos homens e mulheres seguirá sendo desagradável, brutal e curta.

Não teria gostado de viver na Europa pós-romana do século V nem tão pouco ambiciono passar os anos que me restam em um mundo pós-estadunidense que perdeu sua bússola. Mas, ao fim e ao cabo, alguma bússola se encontrará e outro globalismo emergirá da confusão do presente. Nos próximos artigos, tratarei de estabelecer novos focos de lua no ocaso do Ocidente.

[1] . No caso das maiúsculas, os termos Republicano e Democrata se referem aos partidos estadunidenses, enquanto que os termos republicano e democrata em minúsculas se referem a conceitos e tradições já consolidados em teoria política

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