Geopolítica 2017. Navegando à noite sem bússola

A recente eleição presidencial nos Estados Unidos deu lugar não só a uma mudança de governo, mas a uma mudança de regime. Podemos caracterizá-lo como uma espécie de autoritarismo moderado por uma avacalhação. Esta nota analisa algumas das contradições internas do regime de Trump e suas repercussões na esfera geopolítica. Aumentarão as tensões em todo o globo e se acelerará a decadência do império norteamericano.

 

A inesperada eleição de um novo presidente dos Estados Unidos (inesperada para todos, inclusive o ganhador), chama a fazer uma reflexão tranquila, como diziam os romanos, sine ira et estúdio (sem ira ou paixão)[1], como se os fatos recentes nos fossem distantes. Avivemos o siso, e despertemos contemplando como se perfilam dois cenários relacionados mas distintos: política interna e política externa.

O cenário interno dos Estados Unidos mostra uma sociedade fracionada em linhas de classe, de cultura, de raça, de etnia e de ideologias, nessa ordem. Essa série de fraturas tem também uma expressão geográfica na divisão entre estados azuis e vermelhos: as duas costas contra o centro, e partes do norte contra quase todo o sul. A divisão geográfica é a sua vez um eco distante da Guerra de Secessão.

A campanha eleitoral e a eleição final são a expressão de tensões acumuladas durante longos anos, mas que se agudizaram depois da crise econômica de 2008. Na ordem econômica e social, uma crescente desigualdade combinada com um freio à tradicional mobilidade social, deixaram grandes setores de classe média e trabalhadora com uma forte sensação de marginalidade e ressentimento.

A recuperação econômica depois da crise financeira tem tido frutos só para uns poucos. Como dizia um conhecido ministro de finanças do Brasil há mais de duas décadas, “a economia vai bem; o povo, não.” A marginalidade e o ressentimento, em particular, no centro do país, sede de velhas indústrias superadas e externalizadas pelas duas garras de uma pinça – automatização e globalização – tem como expressão política um movimento popular-nacionalista, que exige um retorno a um passado mais próspero e homogêneo que o presente. Esse movimento social lançou por terra a estrutura de poder dos dois grandes partidos – Democrata e Republicano – e elevou a presidência a um personagem do sistema político tradicional. Na linguagem do sociólogo italiano Francesco Alberoni, o movimento superou os partidos, e está por se ver se superou também as instituições[2]. Nesta eleição quase a metade dos votantes[3] votou não por um novo governo mas por um novo regime.

A eleição de Donald Trump à presidência representa a tentativa de reintegração autoritária de um país fracionado. É, em suma, uma revolução pela direita. Do ponto de vista histórico e comparado, quase todos os regimes desse tipo que estudei, depois de uma euforia inicial, sucumbem a uma combinação de contradições internas e/ou um desastre em política exterior[4]. No caso norteamericano, esse dado é motivo de séria preocupação, já que se trata da primeira (até agora) potência mundial. Nas linhas que seguem, passarei em revista as principais contradições internas do processo político norteamericano depois da eleição presidencial para logo passar a uma apreciação tanto das oportunidades como dos riscos geopolíticos que uma administração norteamericana tão autoritária como improvisada pode desencadear.

A primeira contradição interna ao novo regime reside no fato de que se trata de um governo republicano com um chefe externo e longe do partido que o mesmo ajudou a dividir. Seu gabinete será uma amálgama incoerente de distintas facções, cada uma desejosa de obter uma cota de poder, isto é, uma satisfação setorial. O novo presidente passará muito tempo em dirimir disputas entre estas facções. O único denominador comum é o desejo de demolir alguma estrutura institucional ou política pública odiada. Haverá muito dano e pouca construção.

Em alguns círculos liberais, agoniados por sua inesperada derrota, circulam analogias e paralelos com outros regimes de direita (leia-se fascistas) no século XX. Tais analogias não ajudam a entender a situação. Os regimes aos que às vezes se xxx o amanhecer do governo Trump chegaram ao poder em circunstâncias muito mais extremas (Grande Depressão, hiperinflação, desmobilização depois de uma guerra perdida, humilhação nacional, etc), com instituições menos sólidas que as norte-americanas de hoje, e com um aparato de violência bem organizado. Foram autoritarismos sem freio que terminaram por enquadrar o apoio inicial das massas em um sistema de coordenação totalitário. Não existe no regime de Trump nem a vontade nem a capacidade de organizar algo parecido com a Gleichschaltung alemã[5]. Mas que ao Terceiro Reich, o regime de Trump se assemelhará ao decadente império austríaco antes da Primeira Guerra Mundial, caricaturizado na expressão Autoritarismus gemildert durch Schlumperei (autoritarismo moderado pelo embuste).

Farei uma revista rápida de algumas medidas que já se perfilam no horizonte do regime Trump. Algumas se referem a promessas feitas na campanha eleitoral que resultam insustentáveis se Trump mantém apoio político e social. A primeira é o repúdio do programa de saúde pública estabelecido por Obama em 2010 (o chamado Obama Care), e que foi até agora a bête noire dos republicanos no Congresso. A hora chegou de cumprir com essa promessa demolidora. O problema que há de enfrentar não é só uma oposição cerrada por parte dos democratas no Senado, mas a existência de uma trama de interesses criados nos seus anos que transcorreram desde a sanção dessa Lei. Arrisco aqui uma predição.

O desarme da atual política de saúde pública conhecerá três fases, a saber: uma primeira fase espetacular e demagógica que, não obstante, ficará curta em sua aspiração a um repúdio total. Consistirá, em troca, em medidas orçamentárias (chamadas de “reconciliação do orçamento”) que podem passar com simples maioria nas câmaras e que consistem em cortar impostos e fração de gasto destinados à saúde pública. Esta primeira fase podemos denomina-la de “demolição pontual e parcial”.   Com essas medidas se cortarão subsídios que hoje recebem os mais necessitados e se eliminará a obrigação de assegurar aos cidadãos (mais abastados) que gozam de boa saúde e não querem assegurar-se pelo momento. Se manterá, com efeito, a obrigação, por parte das companhias de seguros, de assegurar aqueles com enfermidades crônicas prévias, porque eliminar este logro seria demasiado impopular. Mas o efeito conjunto dessas medidas será um grande aumento do preço das apólices de seguros, o que, por sua vez, é um incentivo para que um grupo ainda maior de “sãos” postergue sua seguridade. Dessa maneira, os republicanos colocarão a saúde pública em uma espiral mortífera.

No longo prazo, não haverá mercado de saúde para muitos. Serão uns 21 milhões de pessoas de poucos recursos sem seguro de saúde. As medidas republicanas cortarão, ao mesmo tempo, o programa público de seguro para os mais pobres, chamado Medicaid. Em suma, trata-se de um programa cruel de guerra não contra a pobreza mas contra os pobres.

A segunda fase do programa consiste em desregular as grandes companhias de seguros. Com uma maior liberdade de ação, estas desenharão mapas que serão atrativos só para os ricos.

A terceira e última fase – mais estendida no tempo (dou-lhe um prazo de três anos) se caracterizará por uma desordem administrativa, menos benefícios para u grande setor da população, e uma deterioração na saúde de setores populares. É a fase de “visibilidade” da regressão social provocada pelo regime de Trump, e pode se voltar contra seu regime. Atrevo-me a chamar essas três fases da maneira seguinte: (1) fanfarronada pública com demolição parcial de medidas vigentes de proteção social; (2) desregulação a favor das companhias de seguros, e (3) maior desigualdade e deterioração de saúde na população de baixos recursos.

O panorama de saúde púbica nos EUA é mau, e se tornará pior. Como amostra basta um botão: recentemente, recebi um e-mail de uma amiga canadense que regressava da Europa e estava visitando amigos em Massachusetts antes de voltar ao Canadá. Escreveu: Taking the bus, from my friend’s place back to Boston, I was struck by how really poor and miserable so much of the population (on bus and subway) look compared to Europe….SO fat, such awful teeth, exhausted faces. A population NOT in good shape!  And yet, on the other hand, so much of the Mass countryside near my friend so unspoiled and beautiful…” [tomei o ônibus que me levou à casa de minha amiga no campo à cidade de Boston e observei como, em comparação com a Europa, a gente que se vê no ônibus e no subterrâneo é mais pobre e miserável que os europeus… muito obesos, com dentições arruinadas e rostos exaustos. É gente em mau estado de saúde. E, ao mesmo tempo, pode admirar o campo em Massachusetts com casas limpas e charmosas…] É uma descrição precisa da desigualdade social e a miséria humana manifestas nos EUA de hoje. A desigualdade e a miséria aumentarão com a nova administração.

Nas zonas do Meio-Oeste e do Nordeste mais impactadas pela desindustrialização, a população sem trabalho nem esperança se voltou massivamente a favor de Trump, em especial, os ex-trabalhadores brancos sem educação superior e de idade relativamente avançada. Diante de uma relativa apatia dos votantes tradicionalmente democratas (que não lograram entusiasmar-se para nada com a Clinton) este setor social (caracterizado pela depressão psicológica, a drogadição e índices alarmantes de má saúde e de suicídio) deu o empuxo final que levou Donald Trump à presidência no presente sistema eleitoral que favorece sua sobre-representação. Foi um verdadeiro golpe de advogados. Curiosa inversão: a vanguarda eleitoral do regime de Trump é a retaguarda social do sistema econômico globalizado[6]. Expressar o desespero com um voto é uma coisa; conseguir a reinserção social é outra muito distinta.

Em política econômica, é de esperar (como com outros governos republicanos anteriores) uma grande “pedra livre” ao setor (traindo a promessa de controlar Wall Street). O novo Secretário do Tesouro é um fiel descendente dinástico de Goldman Sachs (segunda geração).

A única novidade seria o lançamento de algumas importantes obras de infraestrutura, iniciativa que poderia ter o apoio do Partido Democrata[7].  Mas o governo tratará de deixar esta iniciativa em mãos privadas, através de estímulos fiscais e subsídios e não através do gasto público.

Tenhamos em conta que a nova administração será um verdadeiro festim para os lobbies de todo tipo, em especial, da indústria farmacêutica, da construção, dos bancos, das companhias de seguros, de interesses imobiliários, de acertos meios de comunicação e entretenimento, e até de algum ou outro setor de Hollywood. Mais que “esvaziar o pântano” de Washington, como prometeu Trump, este pantanal permeará sua administração. E, isto sim, tomar em conta a inércia do imenso aparato burocrático do Estado. Juntos frearão toda tentação “revolucionária” da direita extrema.

O tema mais difícil será o comércio já que Trump mostrou uma forte preferência pelo mercantilismo e contra o livre compércio, em especial, dos tratados multilaterais. Se esta tendência se afirma, junto com tendências protecionistas similares na Europa, o crescimento global se verá freado e o protecionismo terá, agora, como no passado, consequências negativas para o modelo econômico atual. Atrevo-me a prognosticar que este será o tema central a próxima cúspide de Davos.

A pergunta-chave é se produzirá um verdadeiro retrocesso do modelo atual de globalização? Que esquema o substituirá e com que resultados? Pelo momento, “os mercados” parecem reagir com uma euforia similar à que recebeu a eleição de Ronald Reagan em 1982. Durará esta euforia ou será substituída por esta incerteza e a angústia nos círculos da angurria? A curto prazo, será a festa nos setores sociais privilegiados, algo assim como por o smoking e o vestido longo para um passeio de Ferrari pela Madison Avenue e a Quinta Avenida. Mas – veja” – ajustar-se o cinto de segurança porque há muitos baches na rua. Quanto durará a festa da riqueza e a insolência moeda cujo revés é a decadência?

Em matéria de imigração haverá mais deportações de trabalhadores sem documentação, sem chegar ao extrema da “limpeza étnica” prometida pelo candidato Trump. Haverá outros controles e limites na imigração, com consequências begativas na qualidade do capital humano e na produtividade. De toda maneira, a política anti-migratória será um grave erro econômico e social, mas com o apoio popular nos extratos mas reacionários da base eleitoral republicana.

A lista de contradições internas do governo que se inaugura é muito mais longa. Não é meu propósito nesta nota fazer delas um inventário exaustivo. O que me interessa neste ensaio é sopesar o impacto geopolítico desta mudança de regime norteamericano.

Quais serão as consequências geopolíticas da convulsão interna nos Estados Unidos?

Primeiro, a eleição de Trump reforçar[a todos os nacionalismos europeus (alguns deles de corte absolutamente fascista). Estes serão capazes de desferir o golpe gratuitamente na cambaleante União Euorpeia.

Segundo, o desinteresse do novo regime norteamericano pela OTAN – um pilar fundamental da ordem política internacional depois da Segunda Guerra – produzirá um acomodamento dos distintos países europeus e, em especial, os do Leste da Europa com a Rússia.

Em erro estratégico cometido pelos Estados Unidos há mais de 100 anos dará seu amargo fruto sob o regime de Trump: em vez de acomodar os interesses geopolíticos russos com uma iniciativa norteamericana, agora fará uma aproximação entre o Leste e o Oeste independente dos EUA. A Europa ficará dividida entre vários nacionalismos xenófobos dentro de Estados débeis, que farão concessão atrás de concessão a uma Rússia ditatorial e ressurgente.

Terceiro, no pantanal do Oriente Médio, os Estados Unidos de Trump se acomodarão também na Síria e Iraque ao libreto russo, e tratarão, no melhor dos casos (ainda que eu duvide de que Trump tenha a astúcia de um Maquiavel) de passar o fardo da luta contra o extremismo islâmico a Putin. Ao mesmo tempo, se os EUA repudiam unilateralmente o arranjo internacional existente com o Irã, se produzirá uma rápida nuclearização da região, com o consequente perigo de uma conflagração atômica regional.

Quarto, a política de hostilidade com a China em matéria de comércio e de segurança, e o rechaço a qualquer tratado multilateral com ou sem participação desse país, deixará o terreno livre para uma muito maior hegemonia regional da República Popular da China na Ásia Oriental. Também nesta região é possível que o regime de Trump produza a nuclearização preventiva do Japão e da Coreia do Sul, países que se sentirão desprotegidos frente às bombas da Coreia do Norte.

Em suma, é prável que a “América Grande” de Trump um deslocamento de ordem nacional, um retrocesso da globalização sem uma boa alternativa, e o aumento exponencial do risco de guerra parcial ou geral.
Desde a dissolução progressiva da Pax Romana, não creio que haja outro exemplo contundente de um ocaso imperial que fora, ao mesmo tempo, ridículo em sua expressão e perigoso para a civilização.

 

[1] . Com esta frase, que aparece nos Anais, I.1, Publio Cornelio Tácito (senador romano 56-117) se referia a como analizar o mandato de Augusto e Tibério durante o império

[2] . Francesco Alberoni, Movimento e istituzione. Come nascono i partiti, le chiese, le nazioni e le civiltà, Milano: Feltrinelli, 1977

[3] . No voto direto, a Sra. Clinton obteve maioria, mas não no Colégio Eleitoral, mecanismo de eleição indireta estabelecido pela Constituição

[4] . Ver a respeito o texto clássico de Barrington Moore, Jr. The Social Origins of Dictatorship and Democracy, Boston: Beacon Press, 1966. Para o caso da América Latina, refiro ao leitor meu livro The Fitful Republic, Colorado: Westview Press, 1985

[5] . O fascismo alemão e, em menor medida, o italiano, caracterizaram-se por dar uma importância central e absoluta ao Estado – a partir do qual se deve organizar toda atividade nacional sob a direção de um caudilho supremo e por propor um nacionalismo visceral que leva a conquistar outros povos. Os dirigentes locais e regionais e outros cargos não eram eleitos, mas nomeados, de acordo com o “princípio de autoridade” diretamente pelo ditador. O poder e a autoridade emanada do líder, não da base. Os EUA não chegaram a essa situação.

[6] . Ver a respeito a reveladora análise estatístico do voto oscilante no periódico The Economist, http://www.economist.com/news/united-states/21710265-local-health-outcomes-predict-trumpward-swings-illness-indicator

[7] . No melhor dos casos, seria uma cópia pálida e anêmica dos famosos “New Deals” (democráticos ou autoritários) do século XX. Ler a respeito Wolfgang Schivelbush, Three New Deals: Reflections on Roosevelt’s America, Mussolini’s Italy, and Hitler’s Germany, 1933-1939, New York: Metropolitan Books, 2006

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *