Crise internacional: ajustar o rumo

Entre os fatores que originaram a atual crise internacional há alguns que são evidentes –como é o caso da debacle do sistema financeiro que detonou a crise- e outros que são menos evidentes, mesmo que igualmente importantes. Sem a presença desses outros fatores, a crise, muito provavelmente, não teria existido ou seus efeitos teriam sido infinitamente menores. Quais esses outros fatores? Eles são muitos e variados, e não se limitam apenas ao mundo econômico, mas também estão relacionados com os sistemas de governo e as condutas sociais dominantes. Entre os fatores que originaram a atual crise internacional há alguns que são evidentes –como é o caso da debacle do sistema financeiro que detonou a crise- e outros que são menos evidentes, mesmo que igualmente importantes. Sem a presença desses outros fatores, a crise, muito provavelmente, não teria existido ou seus efeitos teriam sido infinitamente menores.

Quais esses outros fatores? Eles são muitos e variados, e não se limitam apenas ao mundo econômico, mas também estão relacionados com os sistemas de governo e as condutas sociais dominantes. Nas linhas a seguir vamos analisar alguns dos principais fatores intervenientes, procurando oferecer uma visão mais ampla sobre a natureza da crise, sua dinâmica e as medidas que poderiam contribuir para sua superação.

Funcionamento econômico entravado pela desigualdade

Um dos principais fatores que entravam o funcionamento econômico é a crescente desigualdade existente entre os diferentes países e, dentro de cada país, entre os diferentes segmentos sociais. Trata-se de um fenômeno bem conhecido e documentado.

A desigualdade é causada por um peculiar processo de acumulação voltado para a concentração da riqueza. Isso significa que existem vários tipos de processos de acumulação: alguns deles geram uma agressiva concentração da riqueza, e outros conduzem a uma concentração menor ou muito moderada.

Segundo parece, todo processo de acumulação pende, quase naturalmente, para a concentração, a menos que intervenham decisões exógenas —provenientes de fora do sistema econômico— que compensem essa tendência. Essas decisões que favorecem a desconcentração provêm de diferentes atores.

As mais significativas são as tomadas no âmbito governamental com o objetivo de redistribuir o fluxo da renda; entre outras, as decisões relacionadas com o nível e a distribuição da carga impositiva, com o repasse de verbas, com a política monetária e de acesso ao crédito, com as formas em que a poupança nacional é encaminhada para diferentes tipos de investimentos, e com a adoção de regulações sociais e ambientais.

Uma outra questão que incide sobre o tipo de acumulação dominante é a das decisões tomadas pelas empresas, principalmente pelas que lideram arranjos produtivos, em matéria de salários, preços, tecnologia, fontes de abastecimento e destino dos produtos fabricados. Essas decisões estratégicas causam efeitos primários nas próprias empresas e, ao mesmo tempo, efeitos secundários em outros atores econômicos das comunidades nas quais elas empresas atuam. A capacidade de avaliar os efeitos secundários e de ajustar as decisões estratégicas para maximizar o impacto positivo deles constitui o pilar da denominada responsabilidade mesoeconômica das empresas que lideram arranjos produtivos.

Por diversos motivos e circunstâncias políticas e econômicas, o processo de acumulação dominante teve, e ainda tem, um forte caráter concentrador. A concentração da renda condiciona o funcionamento do sistema econômico; é um fator de grande impacto na dinâmica econômica que conduz a uma crise.

O impacto da concentração na crise

* Em primeiro lugar, a concentração conduz à segmentação da demanda efetiva.

Os segmentos afluentes favorecidos pela concentração, desde que têm suas necessidades básicas totalmente cobertas, geram uma demanda por certos bens, muitas vezes supérfluos, que lhes permitem se diferenciar socialmente do resto. Essa demanda envia sinais ao sistema produtivo para que ele gere esse tipo de bens e serviços, originando, assim, uma distribuição sub-ótima da poupança nacional e criando, ao mesmo tempo, interesses corporativos comprometidos com a sustentação desse padrão de consumo e, de maneira indireta, do processo de concentração que lhe dá fundamento.

O consumo supérfluo coexiste com a presência dos segmentos de baixa renda que não conseguem satisfazer suas necessidades básicas; desse modo, a participação deles na demanda efetiva fica muito reduzida. Por sua vez, os segmentos médios da população são capazes de cobrir suas necessidades básicas, e quando dispõem de recursos excedentes eles geralmente reproduzem, induzidos pela propaganda, boa parte do padrão de consumo supérfluo.

* Ao mesmo tempo, os segmentos que se beneficiam com o processo de concentração acumulam enormes excedentes financeiros que precisam ser reciclados. Em tempos normais, as pessoas não soem imobilizar seus recursos excedentes, e sim pocuram transformá-los em aplicações financeiras ou colocá-los na economia real, visando a obter, dados certos níveis de risco, os melhores rendimentos possíveis. No entanto, o processo de concentração e seus efeitos sobre a demanda efetiva reduzem o potencial de oportunidades na economia real, encaminhando as aplicações para transações financeiras cada vez mais mediatizadas ou afastadas da economia real.

O sistema financeiro cria produtos complexos destinados a absorver os excedentes que precisam ser reciclados, obtendo um alto retorno ao longo do processo. Porém, isso resulta num perigoso círculo vicioso que, se não for alterado, acaba por colapsar. Para captar os recursos excedentes, os agentes financeiros concorrem entre si em termos de preços (taxas de retorno), os quais são ponderados com base no risco de cada transação. Os maiores retornos são os obtidos através de audaciosas manobras de engenharia financeira e de um certo encobrimento dos riscos implícitos, tal como aconteceu com os créditos hipotecários “subprime” e com outros empréstimos para o consumo (cartões de crédito). Se a base de sustentação não se tornar mais ampla, o processo vira instrinsecamente insustentável.

* Diante dos desajustes decorrentes do processo de concentração, qual a reação do sistema econômico? Uma solução orgânica destinada a assegurar que o crescimento da produção seja sustentável e não se estreite consiste na redução ou na reversão da concentração da renda. Isso possibilita a ampliação do mercado consumidor com base na renda genuína e, ao mesmo tempo, facilita o surgimento de novas oportunidades na economia real capazes de absorver produtivamente os recursos financeiros existentes.

Infelizmente, esse não é o rumo escolhido. Ao invés, e diante da ausência de uma intervenção corretora exógena, o sistema econômico procura estender sua forma de funcionamento sem mudar a tendência para a concentração: em lugar de incrementar a renda genuína dos segmentos médios e baixos da população, ele lhes proporciona financiamento. Desse modo, e após alguns ciclos creditícios em que as dívidas dos consumidores crescem a uma taxa que supera sua renda, sobrevem, quase de maneira inevitável, uma situação de superendividamento geral.

A permanente reciclagem de recursos excedentes através de transações financeiras afastadas da economia real acaba por gerar bolhas especulativas que estouram intempestivamente. Afinal, em lugar de abater ou desarticular o processo de concentração e seus efeitos, a dinâmica econômica acaba por cevar a bomba que desencadeia uma destruidora e penosa explosão.

A futilidade dos resgates que não mudam a forma de funcionamento

O que esta análise procura salientar acerca das medidas a serem adotadas para superar a crise é muito claro: aquelas medidas que não forem capazes de mudar a forma de funcionamento de nossas economias, baseada na concentração, serão fúteis ou, quando menos, insuficientes. É possível que uma ingente injeção de recursos ajude a atenuar os problemas por algum tempo, mesmo que se trate de uma estratégia insuficiente; porém, se isso não bastar para mudar a dinâmica que conduz à crise, essa situação de crise tenderá a se reproduzir mais cedo ou mais tarde. Assim, os esforços acabarão sendo infrutíferos; talvez não para todos, mas, sem dúvida, para aqueles que em última instância tenham de financiar os custosos planos de resgate financeiro lançados.

* Quais as medidas corretoras que verdadeiramente poderiam contribuir para a superação da crise atual? Aquelas que encaminhem a transição para a acumulação não-concentradora. Entre elas (muitas das quais já foram tratadas em edições anteriores da Opinión Sur), as seguintes:

_ – Macropolíticas destinadas a abater a desigualdade e a sustentar o crescimento, voltadas para o âmbito fiscal, o gasto público, a estabilidade monetária, e a canalização da poupança para o investimento real.
_ – Iniciativas mesoeconômicas de empresas que liderem arranjos produtivos, voltadas para o fortalecimento da cadeia de valor, que assegurem uma justa distribuição dos resultados entre seus integrantes e que otimizem os efeitos secundários de suas decisões estratégicas sobre outros atores econômicos.
_ – Ações diretas de apoio à base da pirâmide sócio-produtiva destinadas a ministrar conhecimento de excelência, financiar a formação de capital, dar assistência para o desenvolvimento da gestão e de uma boa estrutura de negócios, e facilitar o acesso aos mercados.

Defasagem entre as forças econômicas globais e a gestão política nacional

O estouro da crise internacional ocorre num mundo onde as forças econômicas têm peso global, enquanto a gestão política continua tendo somente alcance nacional. Houve uma quebra ou defasagem entre o desenvolvimento econômico internacional e a gestão pública internacional. Isso ficou absolutamente evidente nos primeiros momentos da crise mundial: a reação inicial foi descoordenada e cada país procurou se salvar por si mesmo. Logo depois, o mundo tomou consciência de que não só a economia de um país entrava em crise, mas também o conjunto das economias centrais, com prováveis impactos sobre o mundo em desenvolvimento.

Dada a ausência de um governo global, e diante do fenomenal impacto mundial da crise, foi necessário que os diferentes países concertassem suas respostas, sob a liderança dos Estados Unidos e da União Europeia, e com a menos notória, embora crucial, participação da China, da Índia e das outras locomotivas asiáticas.

Esse fator —o fato de que haja problemas globais, mas não um governo internacional—representa uma severa restrição na hora de fazer frente à crise e de corrigir as dinâmicas que a originaram. Isso nos leva a refletir sobre a necessidade de certas mudanças institucionais.

É preciso tentar uma transição para uma nova ordem internacional que deixe para trás a desigualdade extrema e conte com instituições de governo bem articuladas com a gestão dos governos nacionais. Seria algo parecido com o que aconteceu num passado distante, quando os governos nacionais foram estabelecidos e as cidades-estado e as jurisdições locais tiveram que se adaptar à nova situação.

Com certeza, essa transição não é simples, já que exige a conciliação de um grande número de interesses diversos. Há questões muito complexas, como as relacionadas com a identidade e a nacionalidade (é preciso preservar as diferenças e a diversidade com o maior respeito), e a distribuição de funções entre os âmbitos local, nacional e global. Trata-se de encarar os problemas globais sem limitar a competência de cada um para fazer frente com eficácia aos problemas nacionais ou locais. É um tema complexo e controverso, já que a interação existente entre os diferentes âmbitos e níveis de atuação torna imprecisos os limites do global, do nacional e do local; mesmo assim, é preciso explorar a melhor maneira de levar a cabo essa transição.

A sociedade desconcertada

A aceleração e as rápidas transformações dos tempos atuais atingem todos os segmentos sociais (os jovens e os indigentes são os mais afetados), fazendo com que a sociedade fique cada vez mais desconcertada. Há um olhar perplexo diante dos problemas e desafios, portanto a capacidade de reação para achar soluções é baixa; isso causa mais ansiedade, desnorteamento e alienação, estados que se traduzem em vícios (álcool, drogas, jogo, consumismo) e em atos de niilismo, intolerância, agressividade, e violência social e doméstica.

Uma sociedade desconcertada contribui para a sustentação da dinâmica que conduz à crise e evidencia debilidade para compreender, resistir e modificar determinadas condutas. Esse tipo de sociedade facilita a manipulação de vontades e o desenvolvimento de uma cultura do medo que, diante de uma crise, se transforma em pânico e magnifica enormemente o impacto da crise.

Em presença de uma situação assim, impõe-se um trabalho permanente voltado para o esclarecimento, a compreensão de dinâmicas complexas, a capacidade de identificar as melhores opções disponíveis, o fortalecimento da autoconfiança e da resiliência, e a motivação para encarar e superar as dificuldades. Se precisa de ações destinadas a elevar a consciência individual e coletiva, e a fortalecer os valores adaptados à atual fase histórica da humanidade.

Não há uma poção mágica ou um indivíduo iluminado capazes de acabar com o desconcerto. A ajuda, entretanto, pode vir dos esforços cotidianos do setor público, do setor privado e das organizações da sociedade civil destinados a acrescentar capacidade de reflexão, pensamento estratégico e ação transformadora a todas as frentes de nossa vida social e política.

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