Aleppo é a nova Guernica

O ataque planejado aos civis sírios constitui um crime contra a humanidade que não pode apenas ser contramandado por protestos moralistas mas pelo uso judicial de força decisiva.

 

A semana de 25 de setembro de 2016 é uma data que viverá na infâmia. Um rápido cessar-fogo acordado entre os Estados Unidos e a Rússia terminou na segunda-feira e deu marcha à retomada de ferozes hostilidades. No mesmo dia, um comboio auxiliar dos Estados Unidos foi atingido por um ataque aéreo que americanos e europeus atribuem à Rússia. Enquanto isso, o regime de Bashar-al-Assad na Síria preparou um ataque massivo a leste de Aleppo, um foco rebelde que luta contra o regime. Como no passado, o regime usou bombas de xx bem como armas químicas indiscriminadamente contra a população. Os ataques a civis constituem uma clara ruptura com a lei humanitária internacional. O último ataque aéreo foi o mais mortal no conflito que dura há cinco anos e meio, ceifando as vidas de 300.000 pessoas, e forçando metade da população do país a deixar suas casas.

Este massacre traz de volta a memória de Guernica durante a Guerra Civil Espanhola em abril de 1937 (ironicamente, naqueles dias, a Rússia soviética estava ao lado dos “bons” – o governo republicano – contra Franco). Foi um bombardeio na cidade basca de Guernica realizado sob comando de rebeldes nacionalistas por seus aliados, a Legião Condor da Luftwaffe alemã nazista e a Aviazione Legionaria fascista italiana sob o codinome Operação Rügen. O ataque foi infame porque envolveu deliberadamente civis como alvo de uma força aérea militar. O número de vítimas ainda é discutido, mas gira em torno de 1.000 – um número pequeno se comparado com os repetidos ataques aéreos na cidade síria de Aleppo.

Em resposta a estes ataques, e encomendado pelo governo republicano da Espanha daquela época, o grande artista espanhol Pablo Picasso compôs um mural em óleo sobre tela. Picasso usou uma paleta de cinza, preto e branco, e seu trabalho permanece como uma das mais eloquentes pinturas antibélicas de todos os tempos. A pintura foi primeiro exibida em Paris em 1937. Por ordem expressa do pintor o trabalho permaneceu fora da Espanha até o fim do regime de Franco. Uma cópia em tapeçaria do Guernica de Picasso ficou em exposição nas paredes do prédio das Nações Unidas na entrada da sala do Conselho de Segurança de 1985 a 2009. Pode-se imaginar o que os atuais membros do Conselho de Segurança pensam da tapeçaria enquanto deliberam infrutiferamente sobre a crise síria.

A responsabilidade dos presentes crimes recai não apenas sobre o regime de Bashar-al-Assad e seu aliado governo da Rússia, mas também na enganosa estratégia dos países ocidentais liderados pelos Estados Unidos. Por que a política ocidental na Síria é errada?

Durante esta crise, os Estados Unidos insistiram numa premissa em que pouca gente ou ninguém acredita, e para a qual os russos fingiram concordar, enquanto o xx diplomata Sergei Lavrov conduz o hiperativo porém pouco eficaz Secretário de Estado norteamericano John F. Kerry pelo proverbial jardim da arch diplomacy, até a rua sem saída em que os EUA e seus aliados simplesmente tiveram de desistir, como fica claro em sua recente e memorável declaração conjunta, em que se lê: “O fardo da Rússia de provar que deseja e é capaz de dar passos extraordinários para salvar os esforços diplomáticos”.

A premissa errada da estratégia ocidental acaba em falência. Qual é a premissa? É a visão de que não há solução militar para o conflito sírio. Em qualquer conflito, isso acontece quando uma das partes em disputa erroneamente chega à conclusão de que a disputa chegou a um impasse, quando, de fato, o outro lado não acredita nisso, então continua a avançar. Para ter certeza, o objetivo eventual – mas apenas eventual – é uma série de acordos diplomáticos para encerrar a guerra civil síria por negociação e concessões.

Com uma premissa tão desorientada, os EUA acreditam que a Rússia estaria disposta a buscar um acordo para o fim em troca de um cessar-fogo e do alegado prestígio de conduzir operações militares conjuntas com os EUA na Síria contra grupos terroristas. Isto é um pensamento ilusório facilmente desmontável. A visão russa, por outro lado, é oposta, e isto não é nenhum segredo. Sergei Lavrov já disse em alto e bom som: o presidente Bashar-Al-Assad é o único parceiro viável para lutar contra o “terrorismo” – um epiteto muito flexível, uma vez que meu “guerreiro da liberdade” é o seu terrorista, e vice-versa. Lavrov chamou o exército de Assad “a única força eficiente lutando contra o terror na Síria”. Para os russos, o objetivo estratégico é: deixar Assad prevalecer, por mais sangrenta que sua “vitória” seja (porém, os russos nunca sequer se moveram contra a irrefreada brutalidade de Stalin, que supostamente dizia, “a morte resolve todos os problemas – sem homens, sem problemas”) e apenas então tentarão se acertar com Assad e convencê-lo a ser mais “civilizado”.

A crença de que as negociações, agora, sob o cessar-fogo, produzirão paz e uma espécie de transição para um regime pós-Assad, junto com as mal-acabadas e contraditórias políticas dos EUA sobre o tema, colocou a América numa dificuldade estratégica. As exortações contra o corrente massacre sem agir para pará-lo não produzirão nada mesmo.

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