A geopolítica e o auge da China

Comecemos por inverter a ordem dos argumentos mais banais, já que o auge da China no mundo teve um impacto direto na maneira em que se percebe a geopolítica hoje em dia. Trata-se de um acontecimento único pelo contexto histórico em que ocorreu. 

Em primeiro lugar, o anterior desenvolvimento de Japão, Coreia e Taiwain tem sido fundamental na criação de um contexto favorável à expansão industrial da China e o aumento na importância das cadeias de valor concentradas na Ásia. Em seu livro Power Play (NOTA 1), Victor Cha faz notar como os Estados Unidos ajudaram a criar uma ordem multilateral na Europa, mas não na Ásia, onde privilegiaram, em troca, alianças econômicas e, sobretudo, militares de outro tipo. Apesar disso, a integração da Ásia teve lugar e segue se desenvolvimento através de laços econômicos e de uma rede complexa de investimentos e cadeias de valor. O surgimento da China e a maneira em que encarou sua própria região jogaram um papel importante nesse processo.   

Em segundo lugar, a postura geopolítica dos Estados Unidos contra a Rússia e a favor da China foi fundamental para alcançar a entrada da China no sistema econômico global, com consequências que se fazem sentir hoje em dia. É todo o contrário da situação que existia durante a Guerra Fria, em que a Rússia estava ausente do sistema mundial de comércio. A entrada da China na Organização Mundial de Comércio (OMC) facilitou seu papel de nódulo manufatureiro mundial, fato que faz que a atual competência entre os EUA e a China seja muito diferente da rivalidade característica da Guerra Fria.

Em terceiro lugar, a política chinesa de privilegiar o contexto regional foi chave no surgimento do poder econômico de toda região asiática. A RCEP (Regional Comprehensive Economic Partnership o Asociación Económica Integral Regional) é o resultado dessa política. Na China, a combinação especial de instrumentos de política pública de reforma junto com a abertura para o mundo, criou um contexto muito especial de relação com seus sócios estrangeiros. O uso do investimento estrangeiro direito (FDI) no processo de abertura diferencia a posição chinesa em comparação com os chamados “milagres asiáticos”. 

Outro elemento distintivo tem sido a maneira em que os investimentos estrangeiros privados foram orientados na China pelos instrumentos de planejamento. Conta-se que Eisenhower uma vez disse que os planos não são nada, mas o planejamento é tudo. A sua era uma reflexão sobre a experiência de guerra, enquanto que na China tanto o plano como o planejamento são importantes e ambos se põem ao serviço de objetivos diversos. Ainda que nunca se cumpra ao pé da letra, o plano ajuda o setor privado a calcular e assumir riscos, enquanto que o planejamento é um exercício social que ajuda a controlar e corrigir a burocracia. O desenvolvimento dos investimentos, os vários instrumentos de políticas públicas, o ajuste constante da política industrial e a inovação na ciência e tecnologia são de interesse especial para o Brasil. Em particular, a evolução de ciência e tecnologia é de notável interesse na passagem de um período em lograr “pôr em dia” com os países mais desenvolvimentos a um período de desenvolvimento de políticas de inovação própria que hoje tem consequências diretas na rivalidade com os Estados Unidos. Também são importantes tanto a extensão como a direção dos investimentos que se fazem em matéria de inteligência artificial.

A crise atual e a geopolítica

A crise atual tem gerado grandes mudanças. Estas começaram com a hiperglobalização de fins dos anos 90, e hoje encontram os países ocidentais em um intento delicado de sopesar ganhos e perdas. O economista Dani Rodrik  tem escrito extensamente sobre este tema. 

A recolocação de atividades econômicas do oceano Atlântico ao Pacífico e o peso das cadeias de valor estabelecidas na Ásia hoje tem consequências políticas e econômicas significativas para o Ocidente. Tem dado origem a novos ajustes econômicos, especialmente na Ásia, e colocam regiões inteiras do planeta, por exemplo, a Eurásia, na dianteira geopolítica.

  Neste novo ciclo de globalização, quem se vê favorecido são os agrupamentos que tem uma dinâmica própria de intercâmbios internos, tal como a União Europeia, assim como a indústria eletrônica e seus serviços. Se focarmos estas mudanças em termos de hegemonia, tanto os efeitos da hiperglobalização como a subsequente crise de 2008, junto com a rivalidade entre os EUA e a China, puseram à guisa de juízo o conceito tradicional de hegemonia e seu exercício. As medidas tradicionais antes usadas para exercitar uma hegemonia – dinheiro, forças armadas e esquemas financeiros – tem acaso hoje o mesmo peso que tinham no último pós-guerra? São bases sólidas ou não para construir alianças políticas? Em um mundo multipolar, o significado de hegemonia é distinto quando o sistema econômico global contém forças opostas de maneira integral e não acidental.

Estas considerações nos levam a conectar de novo as noções de hegemonia e de geopolítica. Estamos diante de uma nova busca de primazia e um retorno a um mundo unipolar? Em seu livro The H-World, Perry Anderson (NOTA 2) sustenta que hoje em Washington prevalece ainda a ideia de uma hegemonia liberal, que compreende ambos oceanos e que aspira a estabelecer alianças entre economias liberais com seus corolários políticos correspondentes. Trata-se de uma coalisão de democracias similares? Ou é, em troca, um sistema novo de equilíbrio de poder com elementos de cooperação e competência, como sugere Henry Kissinger? Neste sistema de dois polos fortes, que papel jogam outras potências importantes? Que significa a autonomia estratégica em tal contexto? Que papel joga o consenso regional, e que espaço tem as alianças individuais? Como se pode criar um novo princípio de subsidiariedade baseado na diversidade e dar nova vida às instituições multilaterais? Kissinger sustenta que uma concepção da política como negociação não pode se conduzir com uma busca de soluções finais. Como evitar um jogo de soma zero?

Nossa percepção

O Brasil deve tratar de se posicionar com independência e autonomia no mundo atual – um objetivo que é mais fácil lograr quando tem respaldo regional. Nesse sentido, o Brasil tem que reestruturar sua base institucional regional. A concorrência do futuro terá lugar ao redor da tecnologia nas construções econômicas livres de carbono. Devemos entender bem nossa posição nesta concorrência. Teremos que definir como iremos participar nesta nova era e na nova direção da globalização. Ainda que não sejamos um produtor principal de tecnologia, existem campos de ação em que podemos nos destacar, tais como a produção sem insumos de carbonos. Podemos muito bem lograr grandes avanços em biotecnologia e no uso da inteligência artificial. Para isso, devemos participar nos esforços multilaterais para regular estes campos e definir os limites dos bens públicos globais.

Reproduzido do livro: Brasil-China: ensaios 2002-2021 / Anna Jaguaribe; Paula Carvalho (Org.) – Rio de Janeiro : CEBRI; Ideia D, 2021.

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