Este artigo é o primeiro de uma série que versará sobre a produção mundial de alimentos e sua vulnerabilidade. Esta tem origem numa característica básica de toda a produção econômica e de seus orçamentos, a saber: que os insumos são inesgotáveis e que a capacidade de consumo —e, em conseqüência, a de produção de lixo— também é infinita. Hoje, essas “cadeias abertas” da produção e do consumo fecharam. O mundo é finito e temos de protegê-lo.A água e a vida
O grande escritor e humorista norte-americano Mark Twain disse: “o uísque serve para beber e a água para brigar”. O uísque é um produto destinado ao prazer do consumidor e representa um luxo opcional. A água é vida, e está faltando –eis a razão das brigas. Não se trata de uma metáfora, senão de uma série de fatos preocupantes. Vejamos alguns:
À medida que a Terra se aquecer, o clima se tornará mais úmido em algumas latitudes e mais seco em outras. A mudança climática vai deixar milhões de pessoas sem provisão confiável de água para consumo, irrigação e alimentação de turbinas. Por um lado haverá secas, e por outro lado haverá enchentes.
A água escasseia cada vez mais nas regiões com maior crescimento demográfico –principalmente no Oriente Médio e no Norte da África, onde os conflitos entre países se intensificam.
Os dois países mais populosos do planeta –a China e a Índia— estão esgotando seus reservatórios de água a grande velocidade. Eles terão de importar o precioso líquido no curto e no médio prazo. [Referência->http://www.iht.com/articles/2007/06/26/opinion/edchellany.php]
As geleiras do Himalaia e dos Andes estão recuando e, em conseqüência, o volume dos grandes rios que se alimentam delas vai diminuir.
A população cresce com maior rapidez nas regiões mais áridas e mais inadequadas para a agricultura. O que será que essas pessoas vão fazer para se sustentar? [Referência->http://www.nytimes.com/2008/07/21/business/worldbusiness/21arabfood.html]
Em algumas regões muito ricas, como a Califórnia, a água também escasseia e o ritmo do crescimento econômico está diminuindo. [Referência->http://www.nytimes.com/2008/06/07/us/07drought.html?ei=5070&em=&en=4679406dcb1d8575&ex=1212984000&adxnnl=1&adxnnlx=1212869917-tabyApZgbBEfVFroYuJ2wQ&pagewanted=print]
A irrigação artificial transformou a árida província de Múrcia, na Espanha, em uma terra fecunda que produz hortaliças para todo o mercado europeu. Porém, a água para irrigação está se esgotando e Múrcia está retrogradando, rumo a um destino desértico, depois de ter abrigado a esperança de virar “a Califórnia da Europa”. [Referência->http://www.nytimes.com/2008/06/03/world/europe/03dry.html?n=Top/Reference/Times%20Topics/Subjects/W/Water]
Israel, uma outra terra fértil com irrigação artificial, está esgotando seus cursos de água subterrâneos e deve lançar mão de processos de dessalinização cada vez mais custosos. Este enérgico país pode controlar muitas variáveis geopolíticas, mas não pode dominar o clima. O vertiginoso crescimento econômico está causando a extinção em massa das espécies animais e vegetais a um ritmo sem precedentes. Entre 30% e 50% de todas as espécies viventes deve desaparecer até o ano de 2050.
Crescimento ou esgotamento?
Nossa civilização globalizada engolfou-se numa onda insensata de crescimento sustentado com recursos limitados, alguns dos quais já estão se esgotando. Não é necessário ser um gênio para advertir que, neste passo, nossa prosperidade consumista não deve durar muito tempo mais. A civilização da voracidade e do esbanjamento já está na ante-sala do descarrilamento.
Nos começos do século XIX, um pobre agente comercial francês e autodidata, fez projeções sobre o crescimento da população, não só no seu país, mas também no planeta todo. Do mesmo modo que o inglês Thomas Malthus, o parisiense chegou à conclusão de que a população mundial atingiria o maior grau de desenvolvimento no século XXI e que depois entraria numa descomunal crise alimentar e de recursos básicos. Esse homem, chamado Charles Fourier, afirmava que os recursos não seriam suficientes, apesar de todas as iniciativas industriais, tecnológicas e comerciais que já nessa época estavam em pleno apogeu na Europa.
Segundo Fourier, o fato de se produzir cada vez mais e de se consumir cada vez mais não é o caminho para a felicidade, e sim para a catástrofe. É por isso que ele propôs uma organização social diferente, baseada no que hoje chamariamos de desenvolvimento local sustentável. Como o século XIX impulsionava o progresso indefinido, as sugestões de Fourier foram rejeitadas e consideradas como lucubrações de um louco utopista e pouco informado. O pobre Fourier passou a vida inteira esperando, em vão, que políticos e homens de negócios fossem à casa dele para pedir conselhos. Esse profeta simples supunha que seus escritos iriam convencer os espíritos mais sagazes da época.
Duzentos anos mais tarde, com um crescimento econômico inimaginável no ano de 1830, com a incorporação do que os europeus daquela época denominavam “hordas asiáticas” à civilizaação do bem-estar e do consumo, e com uma população mundial que deve atingir a marca de 9.000 milhões de pessoas até 2050, o petróleo está se esgotando e daqui a pouco a água também vai se esgotar. Os pensadores mais sagazes de nossa geração se vêem obrigados a reconsiderar os orçamentos de desenvolvimento e a procurar fontes alternativas de recursos renováveis e formas de vida que não destruam o meio ambiente. A visão “utópica” de Fourier tornou-se numa visão sensata, precursora de um novo senso comum. Já surgiram os primeiros sintomas, com nítida e brutal clareza: o preço do combustível e dos alimentos disparou. Enquanto milhares de milhões de pobres estão perto de alcançar o status de classe média, há centenas de milhões que não têm o suficiente para seu sustento e estão caindo na mais abjeta das misérias. Em parte por causa do desenvolvimento econômico e social, a atmosfera está se aquecendo, com conseqüências diruptivas em todos os sistemas naturais e sociais a que estamos acostumados. A crise é total e convergente. O estresse é planetário.
Reconsiderar o desenvolvimento
Porém, a que se avizinha não é apenas uma crise objetiva: é uma crise de pensamento e de enfoque. Os modelos econômicos que costumamos empregar se baseiam em cadeias abertas de atividades, que abrangem desde os insumos utilizados nos processos e a fabricação de produtos, até o consumo e os resíduos decorrentes do consumo. A cadeia é aberta porque ela não avalia nem considera os possíveis limites dos insumos, as conseqüências “secundárias” das etapas de agregação de valor, o impacto do consumo sobre a condição humana, e as coisas que podem e que não podem ser feitas com o lixo.Tudo isso fica fora da avaliação e recebe o nome de “externalidades”.
Esse orçamento de um mundo sempre aberto hoje se tornou problemático, se não simplesmente falso. Estamos em pleno processo de internalização das “externalidades”. Os extremos da cadeia se tocam e o processo linear tem se transformado num circuito fechado. Já não podemos dizer, descaradamente, que “estamos consumindo”, e sim devemos dizer que “estamos sendo consumidos”.
Crescer: até quando e em que direção?
No ano de 1968, Robert F. Kennedy, com uma lucidez incomum entre os políticos da atualidade, reprovou o método mais utilizado para a avaliação do “bem-estar” econômico das nações –o Produto Interno Bruto: “Nosso Produto Interno Bruto inclui a poluição do ar, os anúncios de cigarros e as ambulâncias que conduzem as pessoas feridas e mortas em acidentes de trânsito. Também conta as fechaduras especiais desenhadas para dissuadir os ladrões e as prisões onde eles são encerrados. E, além do mais, computa a destruição de nossas florestas de sequóias e o extermínio das paisagens naturais em prol do desenvolvimento caótico dos bairros e cidades”. Todos esses fatores negativos são contabilizados como itens positivos no cálculo do PIB, enquanto a desigualdade de oportunidades, de renda, de saúde e de qualidade de vida não é levada em conta.
Kennedy estava certo, mas, infelizmente, as coisas não melhoraram desde então. Nos 40 anos decorridos desde aquele discurso proferido na Universidade de Kansas, o PIB norte-americano passou de 800 bilhões de dólares para 14 trilhões. Porém, isso significa que as pessoas vivem melhor? Se considerarmos a queda da renda média familiar na última década, o custo irrefeável da assistência médica e o aumento da desigualdade social, a resposta é NíO. No entanto, continuamos apegados ao PIB como padrão do progresso econômico e social.
E quando a avaliação é ruim, as políticas são ruins. Se incluirmos nas contas nacionais outros itens “intangíveis”, como a riqueza natural, a beleza do meio ambiente, a eqüidade na distribuição dos bens e a capacidade de vivermos em harmonia com a natureza, as coisas mudam. Assim, uma nova visão é possível, e isto também possibilita o surgimento de novas políticas. Faz já vários anos que as Nações Unidas divulgam o Índice de Desenvolvimento Humano. A preservação do meio ambiente, a renovação dos recursos naturais e a utilização racional deles —e não o abuso irresponsável— exigem novas medidas e novos métodos de avaliação do bem-estar.
Temos de aprender a contabilizar não só as coisas que possuímos (ou produzimos), mas também as coisas que vale a pena possuir (ou produzir). Por felicidade, essa nova consciência começa a ganhar terreno entre alguns dos melhores economistas do mundo –entre eles, Joseph Stiglitz e Amartya Sen, vencedores do Prêmio Nobel de Economia. O cálculo do PIB constituiu uma boa invenção na época da grande depressão do anos 30, quando o presidente Roosevelt teve de revigorar a população desempregada e reativar a enorme capacidade ociosa da indústria norte-americana. Porém, essa ferramenta hoje carece de fundamentos sólidos e produz efeitos perversos. Por exemplo, o cálculo do PIB não inclui a distribuição de oportunidades; além disso, o dano ambiental é computado como crescimento; e, ainda por cima, o sistema de saúde contabiliza as despesas com tratamentos médicos e não a saúde da população.
Está na hora de vermos o mundo social como um sistema integrado muito frágil, e não como uma série de cadeias abertas em constante crescimento. Nos próximos artigos vou analisar a estrutura do mercado mundial de alimentos, sua vulnerabilidade e suas possibilidades. Deste modo, a Opinión Sur lança uma nova série de artigos sobre geopolítica, destinados a observar como o mundo atual arranja e desarranja nossa sobrevivência no seu aspecto mais básico: o da mesa. Para começar e entrar no tema, sugiro ao leitor que assista um excelente [vídeo->http://brunoat.com/globalizacion/la-historia-de-las-cosas/ ] sobre os objetos que nos rodeiam e suas redes de produção e consumo.
Bom apetite e até nosso próximo encontro virtual, em que vou falar da origem e do destino da comida. Então, vamos ir direto ao assunto –e aos celeiros do mundo.
Opinion Sur



