O processo de construir uma transformação

As transformações que desejamos não se sonham, nem se aguardam, se trabalham. Trabalha-se para interpretar o que acontece, para projetar aspirações a um médio e longo prazo alcançável, para fazer convergir interesses, para mobilizar vontades e para organizar a ação. O esforço para construir uma transformação aponta a fixar um rumo e a assegurar-lhe viabilidade a trajetória; emerge a partir das necessidades, interesses, valores e emoções do coletivo social e abre caminho entre possibilidades e restrições, a procura de resultados que são em boa parte incertos. É um processo complexo e que borbulha no caldeirão das mudanças.São muitas e diversas as situações prejudiciais que gostaríamos de mudar, assim como são as nossas formas de reagir frente a elas. Em alguns casos não atuamos sobre causas e sim procuramos evitar conseqüências; em outros procuramos introduzir ajustes para mitigar efeitos; somente em certas oportunidades encaramos o processo de construir uma transformação.

Construir transformação implica muitas coisas. Um aspecto fundamental dessa construção é determinar o rumo da transformação desejada. Igualmente crítico é o que se refere à viabilidade do processo, já que não basta vontade para gerar uma transformação, senão operar considerando circunstâncias locais e do entorno, possibilidades e restrições que condicionam a viabilidade de qualquer mudança e que impedem antecipar com certeza os resultados.

Rumo e viabilidade estão inerentemente relacionados. Ao fixar um rumo, temos certa apreciação da viabilidade de atingir-lo, e essa viabilidade estará influenciada pela natureza e intensidade das mudanças de direção que impõe o novo rumo.

A construção da transformação se dá imersa em um contexto de múltiplos atores que interagem entre si, cada um com suas necessidades, seus valores e seus interesses e emoções que mudam. É um processo complexo que borbulha no caldeirão da mudança.

De todos os modos e ainda que admitamos a complexidade de transformar o presente, não há situação que se mantenha imutável através do tempo: toda situação está em permanente mudança, às vezes em doses homeopáticas difíceis de perceber, outras vezes através de saltos quânticos, mas a maioria a passos lentos, porém sustentáveis. Não existe um ritmo uniforme de transformação, mas sim períodos de aceleração, de marcha lenta ou desaceleração. O presente pareceria ser um período de acelerada transformação.

O que levamos em nossas mochilas

Como bons caminhantes, carregamos mochilas. Nelas costumamos acomodar necessidades, interesses, valores e emoções.

(i) Necessidades complexas e que mudam

Melhorar o bem-estar está associado à satisfação de necessidades, expressão simples, mas que esconde mais do que revela. É que existem muitos e diversos tipos de necessidades, algumas básicas como alimentar-se, proteger-se, comunicar-se, dispor de seguridade pública, etc., e outras essenciais para a condição humana, como a necessidade de superar o desamparo, obter reconhecimento, dispor de afeto, assegurar a dignidade da pessoa. Este lista não se esgota, senão que é uma mostra do enorme e diverso universo de necessidades que, ademais, modificam-se segundo a classe social, o lugar, o grupo etário, o gênero, etc.

As necessidades possuem uma dimensão objetiva, mas também outra subjetiva que é como cada um as percebe e sente. Também não ficam estancadas, mas sim evoluem com o tempo na medida em que se tem acesso a novos patamares de conhecimento e a mais efetivos níveis de satisfação. O que se considera um nível aceitável de satisfação vai modificando-se permanentemente, algo compreensível, mas que implica em ter que conviver sempre com uma certa dose de insatisfação. Isto contribui para que qualquer meta de cobertura de necessidades estabelecida em planos e programas também deva modificar-se com o tempo.

(ii) O acumulo de interesses

Além das necessidades, carregamos em nossas mochilas interesses, interesses que mudam junto com as necessidades e com os afãs que mobilizam aos seres humanos. Há uma diversidade de interesses, alguns mais centrais do que outros, sentidos com maior ou menor força, desencarnados, moderados ou capazes de ser sublimados em função de valores e emoções.

A dinâmica social gera um fluxo de situações em cada uma das quais uma diversidade de interesses pugnam por fazer-se escutar, prevalecer ou, às vezes, somente sobreviver. Nesta luta são os atores mais fortes e/ou melhor organizados quem tendem a predominar.

Os interesses expressam e, por sua vez, canalizam-se através de um extenso conjunto de instituições e regulações sociais e econômicas. Este marco institucional é resultado de acordos e de imposições que vão decantando através da história. Quando as instituições não são capazes de amalgamar interesses, as lutas transbordam em confrontações que passam a dirimir-se por meios não institucionalizados.

(iii) Os valores

Também carregamos valores em nossas mochilas. São princípios e normas que herdamos de gerações anteriores ou vamos adquirindo ao longo de nossa própria vida. Cada qual tende a acreditar que seus valores são legítimos e universais. Porém, certamente existem milhões de portadores de valores, que se desenvolvem em muito diferentes contextos de necessidades e interesses. E se bem há valores de extensa aceitação, que se associam à dignidade da condição humana, sua interpretação e aplicação diferem enormemente de lugar a lugar, de situação a situação, modificando-se e adaptando-se com o passar do tempo e com a evolução de nossas sociedades.

Isto não nega o rol crítico que jogam nossos valores como complemento e moderação dos interesses particulares, para nos distanciarmos da lei da selva e do salve-se quem puder. Mas também alerta sobre a manipulação que é um objeto para contrabandear interesses que não se poderiam defender abertamente. Uma menção especial cabe aos muitos tipos de fundamentalismos que consideram superiores os seus próprios valores e se atribuem a posse a eles de toda a verdade, sempre.

(iv) As emoções

O coração ou a mente de quem carrega mochilas vêm ancestralmente agitados por emoções que podem ajudar ou prejudicar a marcha. As emoções contribuem para fortalecer a nossa motivação e mobilização para a ação, mas podem também turvar e confundir o pensamento. As emoções agregam vibração a nossa determinação, exaltando o valor do nosso. São imprescindíveis para construir uma transformação, mas é necessário custodiar para que não enturvem o processo de fixar rumos apropriados e do trabalho de assegurar a viabilidade à marcha.

Como parte da natureza humana, as emoções não podem ser ignoradas; estão e estarão conosco. Mas sua inerente labilidade deveria manter-nos alerta de modo a convocar-las para a construção e impedir que sejam utilizadas para a destruição.

Fixar o rumo e reorientar a marcha

Vemos então a complexidade que compreende fixar um certo rumo social e assegurar-lhe viabilidade a transformação desejada. Na essência, a transformação é um processo de construção no qual controlamos algumas variáveis que se desenvolvem dentro de certos parâmetros que condicionam o rumo e a viabilidade, mas que, contraditoriamente, também terminam sendo afetados pela dinâmica do processo que condicionam. Para construir uma transformação se requere identificar e ponderar uma grande diversidade de necessidades, interesses, valores e emoções do coletivo social, em função da qual se traça um médio e longo prazo que consiga suscitar a adesão daqueles que são convocados a reorientar a sua marcha.

Reorientar a marcha é um trabalho coletivo que se encara em todos os níveis, nos bairros e povoados, nos espaços de interpretação da realidade onde participam especialistas e o cidadão comum, nas instâncias políticas e de governo, no mundo das empresas e das organizações da sociedade civil, no âmbito educativo e dos meios de comunicação. Deste magma social surgem visões e utopias inspiradoras, que dão lugar a iniciativas, planos e ações que materializam o rumo.

Para ser exitoso, o esforço de construir uma transformação necessita suscitar sinergias, complementar esforços distanciando-se, dentro do possível, de antagonismos que possam desviar e esterilizar energias. O qual não é simples porque ao mesmo tempo haverá que convencer a aqueles que eventualmente se beneficiarão com as mudanças e vencer as resistências daqueles que possam versem ameaçados com elas. Algumas resistências estão baseadas em razões muito atendíveis e outras em interesses espúrios; umas são defendidas de boa fé e outras muito conscientes de que lutam por preservar novos ou velhos privilégios.

O processo de construir uma transformação se dá em várias instâncias que, se bem possuem entidade e singularidade suficientes para ser reconhecidas como tais, fazem parte de um conjunto de esforços complementares. Isto inclui trabalhar para interpretar o que acontece, para projetar aspirações a um médio e longo prazo atendível, para fazer convergir interesses, para mobilizar vontades e para organizar a ação. Que seja assim implica que a transformação desejada não se realiza sem incidir sobre pontos críticos do funcionamento social, econômico e político, o qual será foco de um próximo artigo. É nesse sentido que se pode afirmar que a transformação que desejamos não se sonha, nem se aguarda, se trabalha.

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