O “Sonho chinês” e seus desafios

Na semana passada se completou a passagem de liderança na China com Xi Jinping como novo presidente e Li Kegiang como novo Primeiro Ministro. O presidente Xi pôs o mundo a especular quando falou de “esforçar-se para alcançar o sonho chinês do grande rejuvenescimento da nação chinesa”. Um jornal ocidental comentou que era um sonho coletivo nacional, contrastando-o desfavoravelmente com o “sonho americano” de conceder aos indivíduos igualdade de oportunidades. Mas, para os chineses, o prometido renascimento da nação é uma recordação da humilhação coletiva durante a era colonial e o “sonho” de recuperar sua posição previa como líder mundial em ciência, tecnologia, economia e cultura.O elevado crescimento em décadas recentes impulsionou a economia e a confiança da China. Ainda assim, os novos líderes da China enfrentam desafios muito sérios que devem ser encarados para que o “sonho chinês” se materialize.

Primeiro está a necessidade de combater a corrupção generalizada. Convertendo-a em sua principal prioridade, o Presidente Xi advertiu que a corrupção poderia levar “ao colapso do Partido e à queda do Estado”. Os novos líderes costumam prometer acabar com a corrupção mas poucos conseguiram. Se o Presidente Xi ganhar esta batalha, será uma grande conquista.

Em segundo lugar, encontram-se os procedimentos administrativos e o abuso de poder oficial que causam tão grande ineficiência até em nível local. Em sua primeira conferência de imprensa, o Primeiro Ministro Li prometeu revolucionar o sistema, reconhecendo as dificuldades de “remover interesses criados”. Prometeu que um terço dos 1.700 itens que requerem a aprovação de departamentos governamentais seriam extintos. A frugalidade será o novo selo distintivo. Serão reduzidos gastos em escritórios governamentais, edifícios, viagens e recepções (não mais grandes banquetes oficiais!) e a poupança será redirecionada para o desenvolvimento social.

Em terceiro lugar, estão as complexidades de dirigir a grande e complicada economia chinesa. A China parece crescer entre 7 e 8% anuais. O resto da economia global se encontra, entretanto, em mal estado. O país deve, por fim, mudar de um crescimento impulsionado pela exportação a outro sustentado pela demanda interna, e passar de um crescimento impulsionado pelo investimento a outro baseado no consumo interno. A implementação dessa nova estratégia de crescimento aceita pelo governo não é simples. Também estão os desafios de administrar a moeda, as enormes reservas internacionais e a regulação de fluxos de capital, com o objetivo de que a atividade financeira sirva à economia real e não se converta em uma fonte de nova instabilidade. Em comércio exterior, a China tem tido muito êxito em formar um poderoso maquinário de exportação. Mas o crescimento das exportações para o Ocidente está diminuindo devido à quase recessão e novas formas de proteção (como aumentos tarifários utilizando medidas antidumping e antisubsídios) se aplicam cada vez mais as importações chinesas. Ao mesmo tempo, outros países em desenvolvimento começam a ser cautelosos com suas crescentes importações de bens chineses a custo baixo. Como a China pode ser sensível a suas preocupações e se esforçar para assegurar um maior equilíbrio e mutualidade de benefícios?

Em quarto lugar, estão os problemas sociais da China. A pobreza, todavia, é significativa em muitas áreas. As desigualdades sociais pioraram, com amplas distâncias de renda entre ricos e pobres e população urbana e população rural que são politicamente desestabilizantes. Redistribuir a renda para os grupos de menor renda pode cumprir duas metas: reduzir as desigualdades sociais e prover a demanda que sustente um crescimento impulsionado pelo consumo. As políticas podem incluir aumentos salariais, provisão de serviços sociais por parte do governo e transferência de renda aos pobres.

Em quinto lugar está a necessidade de abater as crises ambientais na China, as quais incluem escassez de água potável, mais inundações, mudança climática e poluição do ar urbano. Recentes estudos mostram os riscos à saúde com a piora da poluição do ar, incluindo sua relação com as 2.6 milhões de pessoas que morrem de câncer anualmente. Muitos dos protestos na China nos últimos anos têm se relacionado a problemas ambientais, incluindo indústrias contaminantes localizadas próximas das comunidades. Como a China pode integrar preocupações ecológicas em sua estratégia de desenvolvimento?

Em sexto lugar estão as relações internacionais da China. A semana passada o Presidente Xi reafirmou o princípio chinês de “desenvolvimento pacífico” e que o país jamais buscará a hegemonia. É necessário resolver as diferentes demandas por parte da China e outros países do leste asiático sobre o Mar da China Meridional de forma adequada e pacífica, reforçando a confiança de seus vizinhos sobre este princípio. A China, que ainda é, em grande medida, um país em desenvolvimento em termos de renda per capita e outras características, também se deve alinhar com o resto do mundo em desenvolvimento quanto às negociações e relações internacionais. Ao mesmo tempo, espera-se que conceda preferências e assistência especial aos países mais pobres e que seus investimentos no estrangeiro sejam social e ambientalmente responsáveis. Mais difícil para a China é manejar habilmente as relações internacionais com países desenvolvidos, especialmente os Estados Unidos. A China é uma potência em ascensão ou já constituída, e é percebida com certa inveja como um rival por aqueles que temem perder sua anterior dominação. Manter estabilidade política com essas potências é importante, mas, obviamente, isso não depende da China unicamente.

Os anteriores são somente alguns dos obstáculos que a China enfrenta em seu caminho para materializar o sonho de rejuvenescimento. Como acontece com qualquer sonho, não é impossível de alcançar, mas o caminho é longo e difícil.

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