Mais brotos verdes e algumas ervas-daninhas persistentes em um jardim ainda incerto

A economia mundial encontra-se em um claro período de transição, distanciando-se da contração, mas sem ingressar em uma recuperação plena. Um jardim incerto de onde despontam dia a dia novos brotos verdes: o Produto Interno Bruto das maiores economias do mundo cresce, o mercado financeiro se estabiliza, o mercado de capitais se recuperou em mais de 60% durante 2009, restabelecendo em parte a riqueza dos lares estadunidenses e, por fim, sua capacidade de consumo. Porém, algumas ervas-daninhas persistem nos Estados Unidos: o desemprego superou os dois dígitos; como consequência, mantém-se o medo de perder i emprego e a confiança do consumidor continua demandando novos apoios para continuar no caminho da recuperação; o mercado de habitações, epicentro da crise e da atividade econômica, continua oscilante e não logra estabilizar-se.
Em começos de novembro, anunciou-se um crescimento de 3,5% do Produto Interno Bruto dos Estados Unidos, meio ponto acima do previsto por analistas e operadores. Essa porcentagem significou, nada mais, nada menos, que o primeiro resultado positivo em três trimestres de reduções sucessivas. Corroborou-se que a maioria dos analistas vinha predizendo: o fim da contração nos EUA e o início da ansiada recuperação. Os mercados reagiram com euforia diante do anúncio e o Dow Jones superou a linha dos 10.000 pontos, marca que não alcançava desde há quase 10 meses.

O ocorrido nos Estados Unidos se replicou em outras economias que também exibiram crescimento positivo de seu PIB, algumas delas pelo segundo semestre consecutivo, como Alemanha e França. Neste contexto global de recuperação na maioria das grandes economias, é importante destacar que neste trimestre se verificou, pela primeira vez desde que iniciada a crise, um crescimento conjunto do Produto Interno Bruto nos Estados Unidos, Alemanha e China. Esta coincidência é notável, já que essas três economias conformam os grandes “injetores” da economia mundial. O crescimento concomitante dos três países corrobora um panorama global alentador e contribui para verificar a hipótese de que o mundo estaria se aproximando do fim da crise financeira e econômica que colocou a economia global à beira do precipício. Não é tempo, ainda, de aventurar o fim da crise global, mas sim, podemos afirmar que existem evidências claras para afirmar que se superou a contrativa da crise e nos encaminhamos para uma frágil recuperação que se irá consolidando gradualmente e com vicissitudes em 2010, e por vários anos mais. São muitos os aspectos da economia e fundamentalmente do sistema financeiro que seguem ainda sob o “stress” da perturbação e que levará anos para que retornem a um estado de normalidade, ou ao menos a níveis aceitáveis de funcionamento. Paul Krugman dizia na semana passada em Buenos Aires que durante os próximos 10 anos assistiremos a uma economia global lenta, com baixo crescimento.

Na sexta-feira, 6 de novembro, anunciou-se que o nível de desemprego nos Estados Unidos havia superado os 0% — exatamente, 10,2%. Assim, como a euforia ganhou Wall Street ao se conhecer o crescimento do PIB na semana anterior, a depressão se generalizou ao se conhecer a cifra do desemprego. Conjuntamente, conheceu-se a queda do salário médio por hora e o incremento do número de pessoas que deixaram de buscar emprego definitivamente. O crescimento do Produto Interno Bruto, conjuntamente com um incremento do desemprego, está indicando coisas; em primeiro lugar, que as empresas estão crescendo com base em profundos planos de reestruturação, orientados para reduzir custos, aumentar a produtividade e reduzir o número de trabalhadores (a produtividade nos EUA se elevou em 9,5% durante o terceiro trimestre do ano, o maior avanço desde 2003); e, em segundo lugar, que persiste uma grande dependência da economia com respeito aos Planos de Estímulo implementados pelo governo, cuja instrumentação gera gasto e consumo público. O primeiro suscita uma situação cujas conseqüências se manterão no longo prazo. Quando as empresas implementam planos de reestruturação e, consequentemente, diminuem suas planilhas de empregados e trabalhadores, dificilmente retornam aos níveis de emprego que tinham antes da reforma, mais ainda quando enfrentam um mercado futuro frágil e inseguro determinado por uma atitude desconfiada e conservadora do consumidor. O segundo está altamente condicionado pela capacidade fiscal de continuar com os apoios governamentais, como o “tax credit” que se acaba de suspender para a compra da habitação. O efeito desse cancelamento sobre a queda do número e do preço das habitações vendidas constitui um excelente exemplo do impacto destes estímulos fiscais sobre a recuperação econômica e conduz à grande pergunta que hoje se fazem os Ministros da Fazenda do G-20: é tempo de cortar as políticas de estímulo ou, apesar das dificuldades fiscais, é necessário continuar injetando recursos na economia para consolidar a recuperação econômica? Esta pergunta teve, no sábado, 7 de novembro, uma resposta positiva já que a declaração final da reunião expressa “que a situação econômica e financeira melhorou, mas é desigual e ainda dependente das políticas de apoio que possam instrumentar os governos”. O Secretário do Tesouro estadunidense, Timothy Geithner, declarou ao fim da reunião que “o processo de crescimento começou”, porém, advertiu que acabar aceleradamente com os programas de gastos extraordinários prejudicaria a economia e colocaria em perigo a recuperação. Agregou que “a elevação do desemprego ao seu maior nível em 26 anos anunciado na sexta respalda a noção de que este segue sendo um ambiente econômico muito difícil”.

Como conclusão, chegamos ao último trimestre do ano e a economia mundial se encontra ainda em um claro período de transição, distanciando-se da contração, mas sem ingressar em uma recuperação plena; com situações muito desiguais, fundamentalmente entre os Estados Unidos e a Europa; com a aparição de uma clara liderança da economia chinesa que consolida seu crescimento a taxas muito superiores do resto do mundo. Neste contexto, a maior preocupação e fonte de debate passou a ser “a estratégia de saída da crise” que hoje debatem os Ministros da Fazenda do G-20. E, como vimos, a conclusão foi não desmantelar ainda os programas de apoio governamental instrumentados durante a crise. A pergunta que os analistas se fazem ante esta decisão é até quando poderão os governos suportar financeiramente esta posição, fundamentalmente nos EUA, que tem um déficit superior a 9%.

Um trimestre em que os brotos verdes se reproduzem em um jardim incerto: o produto se incrementa, o mercado financeiro se estabiliza, o mercado de capitais se recupera e, em consequência, aumenta a riqueza dos lares e seu nível de consumo. Porém, algumas ervas-daninhas permanecem: o desemprego chega a níveis de 26 anos atrás; o déficit público próximo das duas cifras e a economia demanda novos apoios extraordinários; o mercado de habitações, epicentro da crise e da atividade econômica nos Estados Unidos, não se estabiliza.

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