A covid-19 e a procura de uma nova ruralidade: as famílias que vão se mudar a Tapalqué
A União de Trabalhadores da Terra prepara-se para criar uma nova colônia nesse município, localizado a 278 km da cidade de Buenos Aires. Já tem outras seis colônias autorizadas para uso de terras fiscais. Um modelo que a pandemia trouxe à tona
Um dos debates que a pandemia põe na agenda é sobre a necessidade de descomprimir as grandes cidades, especialmente suas áreas suburbanas. Isto induz a pensar em uma nova ruralidade. Em Tapalqué, cidade da província de Buenos Aires localizada a 278 km da capital federal, está se preparando uma experiência desse tipo. A prefeitura está coordenando com os governos estadual e federal a concessão de uma autorização de uso de terras fiscais. A União de Trabalhadores da Terra (UTT) criará nelas uma colônia agro-ecológica para abastecer a cidade de produtos fruti-hortícolas. Com o apoio do Estado, que construirá suas moradias, mudar-se-ão, quando a cuarentena o permitir, famílias de horticultores que hoje residem em Florencio Varela.
Há várias razões para esta decisão. A primera é que a maioria dos alimentos de horta que são consumidos na cidade viajam 400 kilômetros até o comércio local. “Quasi todas as verduras que se consumem em Tapalqué são trazidas do Mercado Central“, relata Gustavo Cocconi, o prefeito.
Esta situação, que se repete em muitos centros urbanos do país, é especialmente absurda nesta povoação localizada em pleno pampa úmido argentino. As despesas com fretes e intermediários geram um problema com os preços, que aumentam desnecessariamente. Comer verduras frescas é caro; e se se as quiser agro-ecológicas, ainda mais.
Em sintonia com motivos como estes, que dizem respeito ao debate sobre a seguridade alimentar, a cidade tem sua história de gestão estatal: ela abriu, nas últimas décadas, um abatedouro municipal e uma usina de laticínios; comprou um hotel que tinha sido leiloado; e implementou um cartão alimentário local para os moradores de menores recursos. Todas essas iniciativas, que surgiram como resposta em momentos de crises, temperaram uma experiência política. “Nem sempre é questão de ser metido, mas nós temos nos metido em muita coisa”, define Cocconi. “Creio que o Estado deve ser um articulador para produzir o desenvolvimento da comunidade, como um capitalista social”, acrescenta.
O prefeito está exercendo seu quarto mandado. Em dezembro foi reeleito na chapa da Frente de Todos, mas está à frente da cidade desde 2004, quando assumiu o cargo após a morte de quem era chefe comunal, Ricardo Romera. “Ele foi o meu mestre. Um médico que aos jovens do povo abriu-nos a cabeça, porque criou uma planta de tratamento de lixo, um centro cultural impressionante, um cinema, um teatro, muitas coisas que mostraram um Estado presente. A experiência de continuar essas políticas públicas marcou os anos que calhou-me governar”.
Cocconi vê na colônia agro-ecológica “uma oportunidade: aqui há terras do Estado; a falta de terra não é um problema. Seria importante dispor seu uso para o estabelecimento de colônias que gerem para nós produção e consumos mais próximos”.
Um processo de anos
A ideia foi uma proposta da UTT. “Nós viemos trabalhando neste projeto e em outros parecidos há vários anos. São processos que levam muito esforço: tem que buscar terras que estejam disponíveis, apresentar-se aos prefeitos, levar a eles a ideia; também trabalhar com a cidade para que os vizinhos nos conheçam, para não cair como para-quedista. Em Tapalqué, por exemplo, nós fizemos várias feiras e já vamos pela reunião dez mil. Temos viajado com as famílias que vão integrar a colônia”, relata Agustín Suárez, membro da UTT.
O relacionamento com a comunidade é um assunto delicado nas cidades pequenas -Tapalqué tem 10 mil habitantes. A prefeitura pediu à UTT que organize capacitações em agro-ecologia, para integrar os futuros colonos com os vizinhos que estão fazendo hortas em suas casas com mudas que distribui o município.
A colônia vai usar um prédio de nove hectares, aonde mudar-se-ão seis famílias. “Hoje elas estão trabalhando terras suburbanas (de Buenos Aires) que alugam, com muita dificuldade. A pressão imobiliária nas faixas fruti-hortícolas é cada vez maior”, acrescenta Suárez. Mais para frente, a idea é dar o mesmo uso a outros três terrenos fiscais, para assim atingir quatro colônias -embora todas elas pequeñas.
Suárez é engenheiro agrônomo. “Com um hectare cultivado pode-se abastecer de verduras 130 famílias por todo o ano”, explica. E afirma: “Nós não vamos conseguir fornecer toda a cidade mas ajudar nisso, com a vantagem de os vizinhos terem acceso a produtos agro-ecológicos”.
Políticas públicas
A novidade no caso de Tapalqué é que, para criar a colônia, estão trabalhando coordenadamente o Estado nacional, o provincial e o municipal. A Direção de Assuntos Comunitários, da AABE (Agência de Administração de Bens do Estado), outorgará ao município a permissão de uso das terras. O Estado provincial, a través do Ministério de Desenvolvimento da Comunidade, construirá as moradias e a rede elétrica -esta, insumo chave para irrigação. Para tratar deste tema já estiveram em Tapalqué, acordando as obras, o vice-presidente da AABE, Juan Debandi -dirigente de La Cámpora (agrupação que constitui a Frente de Todos) do município de Tres de Febrero, e o arquiteto Rubén Pascolini, vice-secretário de Hábitat do ministério, do também dirigente Andrés Larroque.
“Nós estamos trabalhando em uma autorização precária de uso, junto com a Prefeitura de Tapalqué, no contexto do programa PreservAR, que objetiva dar um uso social e comunitário a imóveis em desuso, propriedade do Estado nacional”, explicou Debandi a PáginaI12, e ressaltou: “Neste caso, o projeto tem um valor acrescentado: a possibilidade de gerar lavouras agro-ecológicas para consumo local, em um prédio que hoje não tem uso nenhum”.
A UTT tem seis colônias agro-ecológicas funcionando -em Luján, Mercedes, San Vicente y Cañuelas (Buenos Aires), em Gualeguaychú (Entre Ríos) e em Puerto Piray (Misiones). A criação das mais antigas, como aconteceu em Luján, foi antecedida de uma tomada de terras. A autorização para uso de terras fiscais foi concedida quando acabava o governo de Cristina Kirchner e preparava-se para tomar posse Mauricio Macri. Cinco anos depois, havendo passado o tempo e com os resultados à vista, o Estado revela-se com mais disposição para aprovar este tipo de uso da terra inativa.
Pensar uma nova ruralidade, quando o campo está dominado pelo modelo do agro-negócio, não parece possível sem políticas públicas por parte do Estado. Ela requer investir fundos, ter acesso a ferramentas e maquinárias, fazer uma transição a outras formas de produzir, montar uma logística de comercialização. Até com estes condicionamentos, hoje há setores da agricultura familiar que vêm conseguindo “botar a cabeça para fora”. A experiência das colônias agro-ecológicas é, em si mesma, uma coisa notável. Está sendo feita, ademais, com a inteligência colocada em desfazer o nó que enfrentam todas as organizações nascidas da pobreza: de serem silenciadas e demonizadas.
A proposta da organização é levar esta experiência a outras cidades pequenas do interior de Buenos Aires. Em 18 de junho passado, foram apresentados dois projetos de lei para a província, que incluem, junto com outros mecanismos, como a criação de um “ProCreAr Rural” (um fundo para empréstimos a juros baixos para a compra de terras), a proposta de legislar na geração de colônias agro-ecológicas. Se for obtida sua sanção, a lei facilitará o caminho para outros prefeitos. O diagnóstico que a organização faz é que há muitas localidades que atualmente devem importar seus produtos fruti-hortícolas. Inclusive Pergamino, o município que tem as terras mais produtivas da província, traz verduras, legumes e frutas do Mercado Central. Além disto, noventa por cento das famílias de horticultores aluga as terras que cultiva.
Página12: https://www.pagina12.com.ar/276684-el-coronavirus-y-la-busqueda-de-una-nueva-ruralidad-las-fami
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