China: o sócio estratégico para a recuperação do Cone Sul da América Latina

A economia dos EUA perderá força como motor da economia global, mas aumentará sua competitividade como exportadora de manufaturas e a China a substituirá como “impulsor” da economia global, fundamentalmente nas primeiras etapas da recuperação. Como consequência, dada a estrutura das importações chinesas, aventuramo-nos a predizer que, em curto prazo, os países produtores de commodities, fundamentalmente alimentos, energia e determinados minerais, se posicionarão em uma situação claramente vantajosa em nível mundial.Existe um consenso quase unânime de que a contração econômica global terminou e que timidamente se inicia uma frágil recuperação, fundamentalmente no epicentro do sistema (EUA). Depois de estarem vinte meses imersos na profunda crise financeira e econômica global, à beira do precipício da depressão, o véu se levanta e aparece o esqueleto de um capitalismo seriamente ferido – em UTI, com respirador artificial – mas ainda com sintomas vitais e evoluindo para uma recuperação. Prognóstico reservado e grande incerteza sobre o tempo em que o enfermo permanecerá internado antes que possa deixar o respirador e caminhar sem o apoio que brinda o governo estadunidense por meio de seus planos de estímulo e resgate. Nesse contexto, ao levantar do véu, aparecem os impactantes índices que marcam o ponto de partida da recuperação. Como em um tsunami, quando se retira a água, aparece uma economia com 0% de desempregados nos EUA e cifras ainda superiores em outras economias desenvolvidas; um déficit público de 9,3% nos EUA – 1,4 bilhões – e uma média de 9% em todos os países que formam a OCDE; recorde de quebras em empresas e bancos, fundamentalmente nos EUA; uma queda de 20% no comércio mundial e crescentes sinais de protecionismo; forte queda de remessas aos lares da América Latina e, segundo a ONU, 100 milhões a mais de pobres no mundo… somente para citar algumas das cifras mais impactantes que caracterizam a economia global ao fim da crise e início da recuperação.

Porém, nem todo o processo de recuperação será territorialmente homogêneo, como não o foi a crise. A partir de nossa perspectiva, cabe-nos intuir analiticamente o posicionamento na recuperação global de nossa Região: o Cone Sul da América Latina. Para iniciar essa reflexão, é necessário fazermos uma primeira pergunta que tem uma resposta muito complexa, mas que trataremos de simplificá-la concentrando-nos no essencial: como funcionava o motor econômico global até 2007 e como funcionará a partir de 2010 e nos anos vindouros?

Na pré-crise, o motor econômico global era mobilizado por um único e potente “impulsor”: o insaciável apetite do consumidor estadunidense e a belicosidade do governo encabeçado por George W. Bush. Juntos, geravam uma potente demanda global que se respaldava, no caso dos lares estadunidenses, em sua crescente riqueza como consequência do incremento sustentado do preço das habitações e das ações e, em todo caso, do gasto militar, no sustentado crescimento do déficit público. A expansão do consumo privado proporcionava-lhe o crédito bancário a pequenas taxas. Por sua vez, os bancos se fundeavam no mercado de capitais com base na geração de sofisticados produtos financeiros, derivados de derivados, que, por sua vez, tinham como núcleo as hipotecas que eles mesmos geravam ao conceder os créditos. No caso do gasto público, o déficit era financiado pela emissão de títulos do Tesouro, adquiridos pelos Bancos Centrais, fundos soberanos e investidores privados, todos eles em busca de ativos de reserva e proteção. O Fed, por sua vez, gerava o circulante, emitindo os dólares necessários para lubrificar todo um sistema que funcionava a altas revoluções, impulsionado por exacerbados valores de hiperconsumo e cobiça. Em princípios de 2008, o “motor” global se aqueceu e entrou em colapso, iniciando-se a débâcle pelo “desinflar” da bolha das hipotecas subprime, seguido pela derrubado de preços das habitações e das ações.

Nos anos que vêm, anos de fraca recuperação, o motor da economia global baixará substancialmente as revoluções e, por fim, o nível de atividade. O “impulsor” principal deixou de ser o consumo dos lares estadunidenses e surgem várias especulações em torno de qual será o substituto, pelo menos nos primeiros anos da recuperação.

No nível da economia estadunidense, o “impulsor”, nas primeiras etapas de recuperação, será constituído pelo gasto público. A queda no consumo privado foi trocada em boa medida pelo consumo público, gerado a partir do plano de estímulos de Obama, os resgates setoriais e a vultosa injeção de recursos no sistema bancário – que os bancos capitalizaram e não transformaram em crédito, como esperava o Fed. Lânguido panorama para a economia estadunidense até que não ressurjam o crédito e a confiança do consumidor. Enquanto isso, mais emissão e mais disponibilização de títulos do Tesouro, porém, menor confiança em seus atributos de ativos de reserva. Desvalorização do dólar e aumento da competitividade das exportações estadunidenses. Em suma, no nível da economia dos EUA, uma recuperação frágil, inicialmente impulsionada pelo gasto governamental, e uma perigosa disjuntiva: retirada dos estímulos e uma recuperação mais débil; ou mais estímulos e maior déficit, acrescentando o fantasma da inflação.

No nível global, a dinâmica da recuperação surge com maior clareza. A economia chinesa será o grande “impulsor” da atividade econômica mundial. A China não deixou de crescer durante toda a fase contrativa da crise e recentemente anunciou um crescimento de 8,9% no terceiro trimestre, o que elevaria a taxa de crescimento para 2009 a 8%, razão pela qual o governo chinês afirmou sua política fiscal ativa e monetária expansiva. Junto ao surpreendente aumento da taxa de crescimento no terceiro trimestre, deram-se a conhecer outros indicadores da economia chinesa que reafirmaram a solidez de sua expansão: um aumento anual de 34% nos investimentos em ativos fixos, as vendas varejistas aumentaram 15,5% no mesmo período e a taxa de avanço da produção de industrial aumentou em 3,9%, superando os 12,3% do mês anterior. É importante destacar que a China, quando sofreu o primeiro impacto da recessão, uma queda das exportações de 24%, para um país em que o comércio exterior representa 60% do PIB, reagiu rapidamente com um plano de estímulo de 580 bilhões de dólares, que foram inteiramente canalizados pelos bancos como créditos ao consumo e às pequenas e médias empresas (PME). É assim que a China se perfila como o motor de arranque da economia global e é provável que mantenha esse status durante os primeiros meses, ou inclusive os primeiros anos, da recuperação. Formidável ironia pós-crise: uma economia centralmente planificada, conduzida por um Partido Comunista, atuará como impulsionadora da recuperação do sistema capitalista global. Mas a China não está só nesta tarefa, segundo as últimas estatísticas conhecidas; acompanham-na duas economias emergentes que iniciaram com brio sua recuperação: Índia e Brasil.

Com essas duas reflexões, podemos adiantar uma conclusão. A economia dos EUA perderá força como motor da economia global, mas aumentará sua competitividade como exportadora de manufaturas e a China a substituirá como “impulsor” da economia global, fundamentalmente nas primeiras etapas da recuperação. Como consequência, dada a estrutura das importações chinesas, aventuramo-nos a predizer que, em curto prazo, os países produtores de commodities, fundamentalmente alimentos, energia e determinados minerais, se posicionarão em uma situação claramente vantajosa em nível mundial.
O Cone Sul da América Latina é uma região que gera um terço dos grãos que se consumem em nível mundial, a metade da carne que se exporta no mundo e conta com formidáveis reservas de hidrocarbonetos e gás. O Chile produz um terço do cobre que a China consome, seu preço subiu 127% no ano de 2009. Ademais, o Cone Sul conta com um “motor” regional e, quiçá, mundial, que é o Brasil, liderando a recuperação regional por meio da geração de mercado de bens e serviços, cujo comércio é favorecido pelas vantagens da zona de livre comércio que o MERCOSUL proporciona. Adicionalmente, esta crise encontrou os cinco países do Cone Sul (MERCOSUL mais Chile) com as contas em ordem: superávit fiscal, um nível de endividamento aceitável em relação ao produto, alto nível de reservas e um sistema bancário suficientemente capitalizado e estável. O futuro próximo do Cone Sul é promissório, a recuperação chegará primeiro e se expressará durante 2010 por meio de taxas de crescimento perto de 3 ou 4%. Este ano, o Brasil entrou em recuperação e se restabelece a afluência de capitais e o investimento estrangeiro; o Uruguai é um dos únicos países do mundo que apresentará taxa de crescimento levemente positiva; a Argentina reverteu a fuga de capitais e a está deixando para trás as limitantes consequências de seu default e de sua dívida com o Clube de Paris. Iniciamos um 2010 promissório. Para consolidar essas tendências, será necessário reconhecer que a China é o sócio estratégico por excelência do Cone Sul da América Latina e, com base nessa comprovação, orientar coordenadamente a política comercial da Região.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *