Ajuste estrutural em paí­ses centrais: implicações para o Sul

Começam a se perceber ajustes estruturais nos países centrais. Um deles é que os Estado Unidos – e quiçá outros países centrais – emerjam da crise com uma economia ainda menos trabalho-intensiva do que o era em 2007. Como este fenômeno impactará a estrutura socioeconômica estadunidense do pós-crise? Que se acelere ou se reverta este processo de concentração econômica dependerá não somente da dinâmica interna, mas sim, em algum grau, da evolução do contexto externo e, muito especialmente, de como, em definitivo, se determinem os imensos recursos comprometidos para enfrentar a crise e facilitar uma saída. Que introduz tudo isto para os países do Sul?Uma informação que chega dos Estados Unidos destaca que a perda de empregos gerada pela crise desde dezembro de 2007 foi maior que o ritmo da contração econômica: a taxa de desemprego estadunidense subiu cinco pontos percentuais, enquanto a economia se contraiu cerca de dois pontos e meio. Disso, pode-se inferir que (i) as empresas têm enfrentado a crise cortando custos, mas em especial, liberando pessoal e/ou (ii) as empresas mais intensivas em força de trabalho (geralmente pequenas e médias) têm sucumbido mais que as demais. Em todo o caso, o que estaria acontecendo é a redução da massa salarial com relação ao PBI e do peso relativo no aparato produtivo das pequenas e médias empresas. Ambas as causas conduzem a um maior grau de concentração econômica.

Com estas novas tendências, como emergirá a economia estadunidense do pós-crise e o que introduz para os países do Sul?

Impacto da economia dos Estados Unidos

Da perspectiva das empresas, significa que são capazes de produzir com uma dotação de pessoal relativamente menor; ou seja, logram aumentar a produtividade do trabalho. O efeito da redução deste item de custos poderia traduzir-se em uma melhora da taxa de lucro ainda que, por certo, os resultados que em definitivo se alcancem dependerão também das receitas que logrem obter no transcurso da saída da crise.

Em nível sistêmico, o aumento da produtividade laboral poderia marcar uma importante mudança estrutural e é que os Estados Unidos – e quiçá outros países centrais – emerjam da crise com uma economia ainda menos trabalho-intensiva do que o era em 2007.

Se assim sucedesse, o impacto se irradiaria em várias direções: por um lado, ao recuperar-se a economia em maior ritmo que o emprego, a massa de desocupados reduziria as pressões salariais permitindo consolidar maior taxa de lucro corporativo. Isso facilitaria a capitalização das empresas e uma dinamização da economia sustentada em uma renovada concentração de resultados do processo produtivo.

Não obstante, por outro lado, um relativamente lento ritmo de expansão do mercado laboral implicará uma mais lenta recuperação da demanda interna já que a contenção salarial se traduziria em um menor consumo. Isto, por sua vez, tem um duplo efeito: reduz a pressão inflacionária (que assegura maior estabilidade de preços e torna menos provável uma alta da taxa de juros, mas, ao mesmo tempo, compromete a colocação da crescente oferta produtiva. É difícil estimar o resultado líquido do encontro destas forças.

Considerando as poucas variáveis analisadas, poderia se aventurar em que o ajuste estrutural em curso serviria no curto prazo às empresas para recompor sua taxa de lucro com base no aumento da produtividade do trabalho; isso seria alcançado ao custo de sacrificar necessidades dos consumidores e de incrementar o risco de médio prazo ao reduzir o vigor do mercado interno. Esse tipo de saída da crise levaria a reproduzir ou a incrementar o processo de concentração econômica.

Valeria agora integrar à análise outras duas críticas variáveis: o que acontece no resto do mundo (contexto externo) e a reação dos governos dos países centrais e qual termina por ser o impacto sistêmico das medidas que adotam para enfrentar a crise.

O contexto externo

Nos demais países centrais, ainda que com algumas variantes, a situação tende a ser semelhante. A crise possibilita neles um incremento da produtividade do trabalho e as políticas de recuperação levam a um contexto de maior competitividade e concentração.

Em troca, os grandes países emergentes (Brasil, Rússia, Índia e China) mais o sudeste asiático procuram com medidas internas mais enérgicas preservar o nível de ocupação, a massa salarial e seu mercado interno. Dessa forma, enfrentam eventuais tensões sociais e possibilitam uma mais rápida recuperação econômica. O crescimento de seu mercado interno implica também a absorção de exportações provenientes dos países centrais e, neste sentido, as economias emergentes facilitariam o ajuste estrutural das economias dos Estados Unidos, da Europa e do Japão: a menor intensidade de uso de sua força de trabalho poderia em algum grau compensar-se com um maior nível de atividade produtiva tracionada por um maior dinamismo do mundo em desenvolvimento.

Com o tempo, essa situação poderia beneficiar ainda mais as economias centrais. É que, por um lado e como se indicou, ao aumentar a produtividade do trabalho e conter a expansão salarial nos países centrais, estes logram aumentar a taxa de lucro, isto é, a produtividade de capital. Em troca, no lado dos países emergentes, ao não se produzir nessa mesma proporção o aumento da produtividade do trabalho (o emprego acompanha melhor o ciclo produtivo) nem tampouco a redução da pressão salarial (sustentada por uma menos golpeada dinâmica produtiva e uma mais firme defesa do emprego que praticam seus governos), o resultado é que pouco se altera a produtividade do capital. Desta forma, tenderia a reduzir-se a distância entre a produtividade de capital entre países centrais e emergentes e, com isso, os eventuais fluxos de investimento que se orientam a uns e outros.

O impacto das medidas para enfrentar a crise

Não obstante, nesta análise não se incluiu ainda o impacto, o enorme impacto, das medidas que os governos dos países centrais estão tomando, e tudo faz supor que seguirão tomando, para enfrentar a crise e facilitar uma saída.

A administração Obama e vários governos europeus derramam enormes recursos para reativar a produção por meio do financiamento de obras públicas e recuperação do fluxo creditício. Com isso, ajudam a mobilizar o aparato produtivo para minorar a queda e começar a recuperação. O consumo interno também acompanha o processo, mas, por aquele ajuste na produtividade do trabalho, a taxas mais reduzidas.

Que resulta deste tipo de medidas? Como a sabedoria popular afirma, a armadilha está sempre nos detalhes. Nesse caso, em determinar que obra pública se financia, porque, se bem qualquer obra pública tenda a reativar, nem todas têm o mesmo impacto no emprego nem os mesmos efeitos multiplicadores. Isto dependerá do tipo de obra pública a se financiar, a tecnologia mais ou menos intensiva em trabalho a se utilizar e quem sejam, em definitivo, os fornecedores e provedores a executá-las. Cada obra pública satisfaz diferentes objetivos, serve a diferentes segmentos populacionais e promove diferentes nós de acumulação (quem acumula e, em consequência, tem melhores condições para crescer).

Se a obra pública lograsse absorver o emprego que deixa inativo agora menos intensiva em força de trabalho e voltasse a fluir o crédito na medida requerida pela atividade produtiva, então no transcurso da recuperação se poderia tanto lograr uma maior taxa de lucro corporativo como um mais pleno nível de ocupação. Obviamente que, se o tipo predominante de obra pública impulsionada pelas medidas governamentais não lograsse absorver na magnitude requerida aquele emprego que a iniciativa privada deixa de utilizar e se, por sua vez, as correntes creditícias não pudessem se recompor na medida necessária para mobilizar plenamente o aparato produtivo, os resultados seriam então negativos tanto em termos de emprego como de uma maior concentração econômica.

Implicações para as economias emergentes

O sistema econômico internacional se dirige a uma reestruturação sistêmica cuja definição se mantém aberta porque a pugna entre as partes não terminou de se definir.

(i)A reestruturação poderia aprofundar a concentração econômica reproduzindo os piores efeitos da presente forma sistêmica de funcionar: instabilidade internacional e no interior dos países, crescente destruição ambiental, desigualdade de níveis de vida e de oportunidades, pobre representatividade e problemas de governabilidade, correntes migratórias não desejadas.

Isto ocorreria porque as diferenças entre países e dentro dos países se manteriam ou agravariam. Nesta trajetória, as empresas de países centrais ajustam custos laborais melhorando sua produtividade e competitividade. Ao mesmo tempo, como também fariam crescer a desocupação, os países centrais se veriam forçados a aplicar uma maior agressividade comercial externa. Isso implica maior competência à produção do Sul e mais duras negociações internacionais.

Por sua vez, reativando-se a produção sem afetar o padrão consumista prevalecente, se estaria desaproveitando a oportunidade para mudar rumo a um consumo responsável. Essa mudança na natureza da demanda permitiria oferecer novos sinais ao aparato produtivo orientando-o em direção a uma produção social e ambientalmente responsável que, em seu turno, favoreceria um desenvolvimento científico e tecnológico voltado ao bem comum e não somente à maximização dos ganhos. Ao não se transformar o padrão de consumo e, portanto, a composição da oferta produtiva, o esbanjamento de recursos e a destruição ambiental continuariam sua marcha ascendente afetando o planeta como um todo.

(ii)Porém, a crise é também uma oportunidade para ajustar o rumo e melhorar a forma sistêmica de funcionar dos países centrais. Se as medidas para enfrentar a crise não manejassem somente magnitudes agregadas mas prestassem particular atenção ao tipo de obra pública a financiar com recursos públicos, se poderiam escolher aquelas obras que, ao mesmo tempo, se orientassem a satisfazer necessidades populares, utilizassem tecnologias relativamente mais intensivas em força de trabalho e assegurassem a maior participação possível de pequenos e médios fornecedores. Do mesmo modo, ao recuperar o sistema financeiro e recompor os fluxos creditícios, se poderia colocar ênfase muito maior em atender à base do aparato produtivo.

Dessa forma, se diversificariam os nós de acumulação possibilitando um crescimento econômico mais balanceado, não concentrado, gerando maior sinergia entre pequenas, médias e grandes empresas. Melhoraria o nível de ocupação e a distribuição da renda dos países centrais, dinamizaria mais rapidamente o mercado interno e ofereceria, assim, uma maior contribuição à recuperação internacional. Isso facilitaria que se acelerasse o desenvolvimento das economias emergentes e suas sofridas populações.

Um aspecto de maior importância seria promover responsabilidade social e ambiental nas pequenas empresas que emergem ou se consolidam, o que se poderia irradiar em tempo de facilitar as condições financeiras, tecnológicas e comerciais que requerem para funcionar. Pouco favor faríamos ao desenvolvimento sustentável lançando ao mercado milhões de novas empresas imbuídas de valores de irresponsabilidade para com os demais e com o planeta que nos sustenta.

É pouco provável que as opções dicotômicas que temos considerado se deem como tais na realidade contemporânea. As trajetórias que, em definitivo, melhor primam terão uma mescla de circunstâncias e características de ambas as opções. O desafio nesta crucial encruzilhada que a crise global oferece é ver somar o mais possível em direção a uma forma de funcionar sustentável, o que implica não somente agregar maior potência ao crescimento, mas sim escolher o melhor rumo. E essa decisão política estará sustentada na presente correlação de forças sociais e econômicas, ponderada e ajustada pela efetividade e determinação com que cada uma se mobilize.

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