A educação tem a ver com o encontro difícil, árduo, entre a infância e a idade adulta

Julgamos o passado das instituições escolares como excludente, homogeneizador e desejamos para o futuro escolas que escutem as vidas singulares. Educar é transmitir o mundo, não deixar sós os demais com seus próprios recursos para que eles se ajeitem como bem ou mal possam; é oferecer signos que outros decifrarão a seu tempo e a seu modo.

Haverá muitos modos de nomear estas épocas, muitas maneiras de rondar pelas guerras, as mortes, as tecnologias, as políticas, as novas civilizações.

Alguns falarão sobre o “líquido”, outros acerca das “turbulências”, muitos pronunciarão “trevas” e um grupo ainda se contentará com o mote do “novo”. Algo que, todavia, não temos compreendido cabalmente terá ocorrido para que tenhamos esquecido os conselhos dos mais velhos e estejamos diante da figura do coaching, como a máxima expressão da formação e da transmissão entre seres humanos.

Suponho que, de todas as palavras que abundam ou que estão disponíveis em nossa torpe linguagem, sem dúvida “hipocrisia” será uma das mais utilizadas quando se fale destes tempos: a hipocrisia que dá valor distinto a duas mortes idênticas, a hipocrisia de dizer sem corpo, a hipocrisia de crer mais em um rodapé de noticiário que na vida mesma; a hipocrisia, enfim, de dizer em lugar de fazer e de não ter feito o que com tanta veemência se diz que se diz que se diz que se diz que se diz (e assim até o infinito).

Ocorre-me que a principal virtude da educação é a da detenção, a pausa; fazer-se um tempo para pensar o que por sua própria mutação já não é tão evidente nem óbvio: a jactância do currículo e as didáticas como as formas nodulares e naturais de recrear e reinventar o educativo.

Quiçá, uma das questões mais interessantes – e por isso a mais preocupante, a mais complexa – seja a de entender o educador como aquele que dá tempo aos demais – tempo para pensar, para ler, para escrever, para brincar, para aprender, para perguntar, para falar – e se dá tempo a si mesmo – para escutar, para ser paciente, para não se submeter à lógica implacável da urgência por cumprir metas, finalidades, programas.

A educação, sabe-se, é uma ação que envolve o tempo e a temporalidade de muitas maneiras: no traçado de um planejamento, nas pautas avaliativas, na duração dos ciclos ou séries, na extensão de um conteúdo; mas também tem a ver com o encontro difícil, árduo, entre a infância e a idade adulta, a juventude e a idade adulta; imagens de idades, experiências e gerações que vão se transformando todo o tempo e que provocam diferentes intensidades nas práticas pedagógicas a cada instante.

É possível, nos tempos que correm, imaginar outra formação docente, outros modos de fazer com que os educadores entrem em cena sem repetir essa imagem da pressa e da urgência? E ainda mais: não há uma discussão prévia ao currículo e a didática, ou bem junto a eles, que tente estabelecer com claridade a relação complexa entre tempo e ensino, tempo de ensinar e tempo de aprender, tempo presente e outros tempos?

Minhas perguntas, eu sei, não têm nem desejam uma resposta rápida. Porque não se trata só da transmissão do mundo. De um mundo sempre revolto, sempre incógnito, sempre cambiante e, também sempre em perigo. É na relação entre mundo, vida e escola ou entre ensino, existência e escola onde aparecem as perguntas mais álgidas e mais interessantes.

Por exemplo, a pergunta pela transmissão do mundo de uma geração a outra quanto a seus efeitos individuais; ou a pergunta pelos diferentes mundos que habitamos, ao mesmo tempo, a partir de nossas vidas; ou a pergunta sobre o que faremos com o mundo, que vida nos permite pensar e fazer o mundo e quem o fará; ou, enfim, a pergunta interminável acerca da relação entre que mundo/s, que vida/s e que escola/s. Mas há algo mais, sempre há.

A relação entre o tempo, o mundo e o ensino não é transparente e tenho a sensação que a temos simplificado demasiado. Quisera adotar aqui a figura do ensinar como aquela que nos provém dos gregos…

Mostrar, ensinar, apontar, oferecer signos do mundo; signos no interior de uma relação e, por isso, ações de conteúdos que, em seguida, se tornam verdadeiros assuntos de conversação: ler, brincar, olhar, pensar, estudar, escrever, escutar, perceber, imaginar, desenhar, inventar, etc.

Se adotamos esse sentido para o ensinar é possível que a tarefa de educar também seja entendida como uma responsabilidade de transmitir o mundo em forma de vidas e não deixar sós os demais apenas com seus próprios recursos para que se ajeitem como bem ou mal possam. E também significa dizer que entre o ensinar e o aprender há um abismo, uma distância infinita.

Oferecer signos que outros decifrarão a seu tempo e a seu modo: esta é a questão. O ensino não pode atravessar ambos aspectos da mesma maneira; pode se interessar por isso, sim, claro está, mas não pode garantir que o que se aprende é o que se ensina, nem que o que se aprende se aprende ao mesmo tempo em que se ensina.

E isso nos põe frente à segunda dimensão essencial dessa discussão: como pensar e como fazer para que a educação seja, com efeito, para todos; isto é, nem para uns nem para outros, mas para o comum, para o bem comum?

Eu queria entender o comum com o público, o de todos, com efeito. Mas apenas se menciona o “todos”, a “totalidade”, também sinto que algo se me escapa.

De certo passado hegemônico a certo presente plural, algo se debilitou no processo de construção pedagógico. Julgamos o passado das instituições escolares como excludente, homogeneizador e desejamos para o futuro umas escolas que escutem as vidas singulares. Mas como habitamos as instituições no presente, entre a ideia do homogêneo e a ideia do diferente?

As confusões são habituais e certo desânimo parece ocupar o lugar da utopia. A princípio, cabe afirmar que as escolas não estão feitas e há que se fazê-las. Parece uma verdade algo torpe e demasiado evidente. E, não obstante, vale a pena insistir nisto: as escolas não possuem um modelo externo a si mesmas e é seu diário fazer na cotidianidade dos gestos, palavras e ações quem o produz. Qualquer intento por mostrar um modelo de interioridade escolar a partir da exterioridade – seja esta estrangeira ou nativa – provoca uma mudança de linguagem, uma certa intraduzibilidade.

Quisera aqui resumir essa confusão em uma ideia não de todo clara, mas que quiçá ajude a dissolver a oposição entre o singular e o comum: educar se educa qualquer um e cada um, a cada uma.

Aquilo que tenho para ensinar – isto é: o que já sei e o que todavia não conheço, o muito e pouco, o relevante ou supérfluo, o que está próximo e o que está longe de minha vida ou de outras vidas – deveria se oferecer a qualquer um, mais além de como o receba, que faça com ele, quando. Se não me dirijo a qualquer um, seria impossível sequer começar a conversar.

Esta é para mim a noção de igualdade mais reveladora e mais certeira: considerar qualquer um, sem exceção, um igual. Assim, a igualdade não poderá ser algo que ocorra depois pelos efeitos de um certo tipo de proposta educativa, mas que deve ser imediata, primeira. Mas é evidente que também o que se ensina produz efeitos diferentes em cada um. Por isso mesmo é que se o começo do educativo está demarcado pela igualdade, seu destino será, sempre a singularidade. Em tudo isso se converte a arte de educar: em saber, de algum modo, em que momento nos dirigimos a qualquer um e em que momento nos dirigimos a cada um.

E o futuro? Tenho problemas com a ideia de futuro em educação. Não me convencem esses futuros pré-construídos ou pré-fabricados de antemão. Não me comove a imagem de que algo, alguém, será depois. E tenho a impressão de que em nome do futuro temos postergado o presente, nosso único tempo real, nosso único tempo existencial, onde tempo, vida e mundo possuem, acaso, algum sentido.

Artigo publicado em NOVEDUC

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