A ascensão da China e seus impactos para os povos

Em que pese o ensurdecedor ruído midiático e geopolítico que se acumula nestes tempos turbulentos, algumas questões parecem seguras: a decadência dos Estados Unidos e a ascensão da China são tendências de larga duração, estruturais, que podem demorar mais ou menos tempo para se concretar, mas resultam, digamos, inevitáveis.

A segunda questão que vai ficando meridianamente clara, é que a guerra entre potências nucleares é mais que provável, com todas as terríveis consequências que terá para a humanidade e a vida na Terra. Nunca houve uma transição hegemônica sem guerra.

Não posso estender-me em dados sobre estas tendências, mas queria destacar que o domínio da China das tecnologias da revolução industrial em curso (como a inteligência artificial, as redes 5G e a computação quântica, entre outras), representam algo similar ao domínio pelos EUA, um século atrás, da organização científica do trabalho, a adoção dos avanços tecnológicos da época e sua aplicação na arte da guerra.

Existem algumas diferenças a respeito das anteriores transições, ou seja, a decadência e a ascensão de grandes potências.

A primeira é que a potência decadente depende da ascendente, porque suas economias estão entrelaçadas. Exemplo disso é a enorme frustração da estadunidense Boeing, quando a China acaba de comprar 292 aviões comerciais de sua competidora Airbus, que reagiu pedindo ao governo Biden um diálogo produtivo com a China, porque não pode prescindir desse mercado ().

O comunicado da Boeing disse tudo: as vendas de aviões Boeing à China respaldam historicamente dezenas de milhares de exemplos estadunidenses, e esperamos que os pedidos e as entregas se retomem logo. Mas o governo dos Estados Unidos impôs sanções que incluem a manutenção e a reparação de aeronaves Boeing, o que prejudica uma de suas principais empresas.

A segunda diferença é que estamos diante de uma transição que envolve regiões e nações cuja população tem diferentes cores de pele, que envolve uma história de colonialismo e racismo do Ocidente contra o Oriente, do Norte contra o Sul. Algo assim não tinha acontecido em transições anteriores.

A terceira é que não haverá um mundo hegemonizado pela China, nem pelos Estados Unidos, nem por nenhuma outra potência. Encaminhamo-nos para um mundo fraturado em dois grandes blocos, com várias regiões e até continentes oscilando entre um e outro.

Como a transição se resolverá mediante guerras, é importante ter em conta que o setor de defesa da China está desenvolvendo novas armas de maneira mais eficiente e entre cinco e seis vezes mais rápido que as dos EUA, segundo um alto posto da Força Aérea (). A vantagem chinesa se radica em sua base industrial e a escala de sua pesquisa, enquanto que as principais exportações dos Estados Unidos são commodities agrícolas e armas.

Ainda que a questão geopolítica seja importante, e haverá que seguir aprofundando-a para uma melhor compreensão de um mundo complexo e em mudanças constantes, me interessa abrir o debate sobre as repercussões de uma possível hegemonia chinesa nos conflitos sociais e no tipo de movimentos que haverá no futuro, a partir de uma perspectiva centrada na América Latina.

Um primeiro aspecto a levar em conta é que, sob a hegemonia inglesa, predominaram os sindicatos por ofícios e sob a estadunidense, os sindicatos de massas. Em grande medida, como consequência do tipo de empresa e de produção que houve em ambos os períodos. A grande empresa taylorista e fordista substituiu a empresa familiar manufatureira, onde os trabalhadores ainda controlavam seus tempos e modos de trabalho.

A segunda é que, desde a revolução mundial de 1968, o movimento trabalhador tradicional deixou de ser o sujeito central na luta anticapitalista, sendo substituído pela gente ordinária, as mulheres que lutam e os povos negros, campesinos e das periferias urbanas. A acumulação por despojo e a quarta guerra mundial levam os povos, as mulheres e as juventudes a lutar para sobreviver, porque estão condenados ao desaparecimento sob este modelo.

A terceira é que o sequestro dos Estados-nação pelas grandes empresas multinacionais e um por cento mais rico faz que os movimentos não possam se referenciar nessa instituição, nem para lhe exigir nem para ocupá-la, abrindo-se os caminhos das autonomias como necessários e possíveis.

Por último, me custa imaginar que vá existir um tipo único de movimento e um só modo de caminhar, porque as tendências dizem que haverá diversas formas de organização e de ação. O que sabemos é que os movimentos unificados e unitários não serão emancipatórios, porque não podem sintonizar com uma época profundamente antipatriarcal e anticolonial.

Serão os tempos de quem se arrisque a criar pondo seus corpos à frente; e serão maus tempos, para os que buscam manuais.

Artigo publicado por La Jornada de México, em 15.07.22.

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