Um circo de variedades

Atenção, leitor: a seguinte análise não será emitida em Davos. Um circo de variedades é um circo com representações simultâneas em três pistas. Chegou a significar algo selvagem, confuso, cativante ou entretido. Também é perigoso. Portanto, é uma imagem apropriada para ilustrar o mundo de hoje.

Gostaria de representar o atual panorama geopolítico do mundo como um circo de variedades. A razão de utilizar um circo como uma metáfora é que cada vez mais tanto a política nacional como a internacional são arenas para espetáculos.

Alguns desses espetáculos são organizados pelas potências consolidadas e as instituições multilaterais. Como Max Weber uma vez escreveu, a política moderna às vezes assume caráter de esporte. Outros espetáculos são organizados como surpresas por atores não estatais e extra-institucionais. Desses últimos, as irrupções terroristas são, tristemente, as mais espetaculares. É como se todos demandassem atenção, muitas vezes às custas da verdade, decência e respeito pelo bem comum.

Há várias décadas, o sociólogo Guy Debord publicou um livro intitulado La societé du spectacle (NOTA 1). Foi uma acusação premonitória de nossa cultura consumista saturada de imagens: um conjunto de fenômenos determinados pelo capitalismo como publicidade, televisão, cinema e celebridade. Hoje deveríamos agregar redes sociais à mescla. Um dos principais postulados de Debord é que não existe tal coisa como meios de comunicação neutros; pelo contrário, todas as notícias são shows orquestrados. A internet estimulou extraordinariamente esta condição humana, e seu caráter aparentemente democrático – e alguns diriam anárquico – só generalizou a habilidade de manipular e enganar. Mais ainda, os meios de comunicação são onipresentes e muito difíceis de eludir.

As vozes de uma pesquisa séria e um discurso racional se localizam em um segundo plano neste carnaval de imagens e tuítes. Como na Idade Média, estas práticas buscaram refúgio em alguns – mas de nenhuma maneira todos – “monastérios” modernos: alguns círculos de leitura, comunidades científicas, fundações, institutos de pesquisa e definitivamente não na maioria dos chamados “think thanks” (usinas de ideias) de onde se aduz pesquisa enviesada em apoio a “conclusões” pré-estabelecidas.

O grande espetáculo constitui o palco maior e mais visível do circo. As promovidas festas de tecnologias, a atuação de equipes nacionais competindo em eventos desportivos internacionais, as declarações grandiloquentes de líderes, o deslocamento de tropas, o culto aos heróis, as (usualmente insubstanciais) declarações das celebridades, as ameaças de guerra, ataques terroristas e as demonstrações de força contra-terroristas e o fluxo constante de sofrimento humano exibido nas telas, são características midiatizadas de nosso ambiente cotidiano, sazonadas com um aluvião de anúncios que propaga tanto os venenos como seus antídotos. Nos círculos acadêmicos, a maioria dessas palhaçadas, vistas de uma perspectiva competitiva, são chamadas “poder brando”. Muito depois do Dr. Goebbels, eles são os novos ardis de uma propaganda refinada.

O segundo palco – um que atrai menos espectadores – exibe a geopolítica tradicional. É o âmbito da competência entre o poder grande e o pequeño, na qual estados-nações e os blocos nacionais – as permanentes e as ocasionais alianças – disputam sua posição no mapa.

Logo ao final da Guerra Fria, e por cerca de duas décadas, a globalização – sob a proteção da única superpotência remanescente – parecia haver condenado a geopolítica tradicional ao fundo da lata de lixo da história. Mas isto não ia ser assim. Em que pese ter trazido muitos benefícios, a globalização não os distribuiu equitativamente, nem no interior, nem entre os países. Hoje, o resultado é ressentimento em expansão e reação violenta.

Cada vez mais, a reação contra a globalização toma a forma de nativismo, nacionalismo, protecionismo, uma aproximação transnacional oportunista das relações internacionais, da polarização dentro, e a exacerbada tensão entre, as nações. Como resultado, a geopolítica recobrou proeminência tanto em círculos eruditos como em espaços de conversas mais populares, oscilando entre a opinião especializada dos jornais até às áreas de conexão das redes sociais. O segundo palco do circo é bastante ativo e seus espectadores estão um pouco mais alertas e conhecedores do tema em disputa, em que pese que ninguém sabe o que fazer ou como terminariam os jogos de poder.

Atualmente, as tendências são as seguintes. Existe uma perda significativa de poder e prestígio por parte dos Estados Unidos (NOTA 2), uma paralisia em uma União Europeia disfuncional (NOTA 3) e o aumento de influência e interferência por parte da China e da Rússia. A Índia está chegando só um passo atrás. Outras potências menos significativas, tanto o Irã ou Turquia dentro das maiores quanto Coreia do Norte, Paquistão ou Israel entre as anãs armadas nuclearmente, têm suas vozes a interesses considerados. Estados débeis ainda têm influência. Inclusive Estados completamente débeis podem causar estrafos se dão guarida a movimentos violentos e formam redes. Em todo o mundo, a democracia está em retrocesso e o espaço cívico está se encolhendo (NOTA 4).

Nenhuma dessas tendências é um bom augúrio para o manejo do bem comum global nem para o destino da própria humanidade. Portanto, deveremos esperar distúrbios no segundo palco do circo mundial. A fluidez dos alinhamentos entre as potências cada vez mais define o sistema internacional, a equilibrarem-se Moscou e Pequim entre elas, tanto como muitos aliados estadunidenses afiançam suas relações com Washington.

Se o leitor deseja explorar mais sobre a situação nesta pista, recomendo o recente livro de Stephen King: Grave New World (NOTA 5).

O terceiro palco do circo é um círculo de violência: terror, insurreição e conflito armado aberto. Sob esta capa, amigo e inimigo frequentemente intercambiam lugares e a distinção entre combatentes e não combatentes se borra na contabilização das vítimas (NOTA 6). A distinção entre ganhadores e vencedores também fica manchada em muitas guerras que não têm um fim previsível: Somália, Iêmen, Nigéria, Afeganistão, Iraque, Síria e Crimeia, para citar algumas.

Qualquer relatório geopolítico que chega a meu escritório semanalmente marca a crescente instabilidade e o risco de funestos enfrentamentos. Por exemplo, encontramos o representativo relatório de Stratfor Worldview (19 de janeiro de 2018):

Previsão anual para 2018: o provável sucesso da Coreia do Norte em uma viável força de dissuasão nuclear dará lugar à aparição de uma nova e mais instável era de contenção. Como um espectador de tecidos bélicos na região da Ásia-Pacífico, a China e Rússia se juntariam enquanto os Estados Unidos tomarão medidas inclusive mais fortes sobre o Irã – e incluindo seus próprios sócios comerciais”.

As notícias do terceiro palco do circo mundial intranquilizam. Em meu próprio livro Strategic Impasse (NOTA 7), caracterizo a situação, exclusivamente, a partir de uma perspectiva estadunidense, como uma de “condenado se o fizer, condenado se não o fizer (NOTA 8)”. O relatório citado anteriormente ilustra corretamente o impasse. Em que pese que não se pode descartar uma ameaça de uma guerra na Península Coreana, o Estados Unidos provavelmente tratará de evitar um custoso ataque preventivo contra o programa de armas nucleares do norte que mataria milhões localmente e faria desabar a economia a economia global para uma recessão inclusive pior. Em troca, as partes do conflito, como predisse Stratfor, entrariam em uma instável era de contenção”. Será um precursor de guerras frias em miniatura por qualquer lugar no planeta, com ocasionais mas devastadoras reagudizações.

Com a proliferação de dispositivos nucleares, não só entre estados mas em breve também entre atores não-estatais, o risco de destruição massiva aumentou significativamente. A este respeito, o terceiro palco do circo geopolítico poderia perfeitamente se converter em quinto círculo do inferno de Dante, onde os iracundos peleiam entre eles na superfície do rio Styx e se dá o gorgorejar sombrio debaixo da superfície da água. Se isto chegar a ocorrer, diremos como Dante:

“Quantos creem lá em cima ser grandes reis,

que aquí estarão, como porcos no barro;

deixando atrás de si horríveis infâmias” (Inferno, Canto VIII)

 

[1] . Guy Debord, La société du spectacle (1967, Paris: Les Éditions Buchet-Chastel).

[2] . A erosão do prestígio estadunidense não é recente. Resultou séria nas sequelas da invasão ao Iraque, e só foi atenuada durante os anos do governo Obama, em grande parte devido à retirada e à vacilação. Donald Trump exacerbou este declive. Onde Obama liderou pela retaguarda, Trump produz uma retirada pela frente. Descumprindo prévios compromissos com uma ordem internacional com relação a direitos e emparelhando com uma ideologia autoritária, o presidente norte-americano está abrindo caminho para mal intencionados líderes em outras partes para seguirem seu exemplo. O nacionalismo repugnante termina sendo uma franquia.

[3] . Este será o tema de meu próximo artigo em Pinión Sur, ‘Europa emérita”. As próximas eleições na Itália sugerem que seu resultado poderia desestabilizar a aliança entre a Alemanha e a França, refrear o processo de reforma da União Europeia e inclusive a sobrevivência da moeda única no continente. Definitivamente, os Estados Unidos é tão frágil que qualquer evento significativo como uma eleição nacional na Itália ou uma local na Catalunha destruiria seu equilíbrio e implicaria uma nova crise do status quo.

[4] .  Consultar http://carnegieendowment.org/2015/11/02/closing-space-challenge-how-are-funders-responding-pub-61808

[5] . Stephen D. King, Grave New World.  The End of Globalization, the Return of History (2017.  New Haven and London: Yale University Press).

[6] . Isto foi previsto com agudeza pelo historiador militar israelense Martin Van Creveld em uma série de livros que começou com seu famoso The Transformation of War (1991, New York: Free Press).

[7] . Juan E. Corradi, Strategic Impasse.  Social Origins of Geopolitical Decline (2018, New York and London: Routledge).

[8] . O provérbio em inglês reza: “damned if you do, and damned if you don’t”. Um equivalente em português seria “saiu da panela para cair na brasa”.

 

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