Tecido financeiro apropriador, o caso da BlackRock

Têm-se desenvolvido no mundo intrincados e extensos tecidos de organizações econômicas que se apropriam de boa parte do excedente gerado pelo esforço produtivo da humanidade. Esses tecidos têm seu epicentro em países centrais, mas seus tentáculos atingem todo o mundo. Conseguem abalançar-se sobre oportunidades de lucrar e também de retrair-se sem perdas quando as circunstâncias mudam. O caso do tecido articulado pela BlackRock e seu impacto.

Grandes corporações internacionais dedicadas a apropriar-se de recursos naturais e do esforço produtivo que outros espalham têm existido sempre, mas nunca antes se conformaram tecidos globalizados de entidades que manejam a discrição a parte mais lucrativa do financiamento e dos investimentos em todo o mundo. Constituem a espinha dorsal do desaforado processo contemporâneo de concentração da riqueza e do poder de decisão que sustenta a atual trajetória.

O dramático é que aquilo que fornece recursos aos poderosos fundos que se articulam em tecidos apropriadores inclui grupos opulentos mas também fundos de pensão de professores, de funcionários públicos, de universidades, que são arrastados a cumplicidades lucrativas contrárias aos seus interesses e os das suas comunidades.

Estes tecidos de entidades multimilionárias estruturam-se com base em entrelaçamentos entre elas. Umas investem em outras para estas gerirem parte de seus recursos, embora, ao mesmo tempo, desenvolvem próprios portfolios de investimentos com recursos de terceiros que suplementam os seus. Se forem olhados em um determinado momento, esses tecidos assemelhariam-se com uma teia de aranha de entidades que recolhem e aplicam recursos. Porém, se forem observados em movimento, pareceriam mais um caos de energias disparadas por um mutante número de decisórios de diferente natureza e magnitude. O processo resultante está longe de ser lineal, já que em sua dinâmica acontecem redirecionamentos e estalos de diversas origem e envergadura. Estas pequenas ou grandes comoções podem dever-se a acontecimentos ambientais, sanitários e políticos mas também a incongruências econômicas desestabilizadoras que geram desigualdades, faltas de equidade e injustiças. Esse complexo contexto de forças é inerentemente instável: há pugnas de interesses (alguns antagônicos, outros que até convergem), imposição de privilégios, permanentes abusos de poder, imisericórdia e cobiça já institucionalizadas que sobrevoam como princípio ordenador e legitimador do rumo imposto à humanidade e ao planeta.

Assim, as tensões, diferenciações, antagonismos y contradições que acontecem no interior dos tecidos financeiros apropriadores impactam na sustentabilidade das hegemonias. De qualquer maneira, mesmo com a sucessão de predomínios, a dinâmica desses tecidos tende a consagrar tendências oligopólicas, nas quais um ou poucos líderes conseguem articular ao seu favor o resto de fundos que geram investimentos. Cada grupo financeiro defende seus interesses mas, aliados aos demais, exercem seu poder para forçar marcos regulatórios plenos de medidas ilegítimas que transformam em legais. Dai emerge um dos principais motores do processo concentrador em favor do um por cento da população do mundo.

Aqueles que se beneficiam com um tecido apropriador acreditam em que sua hegemonia manter-se-á eternamente e que continuarão operando com a mesma impunidade. Porém, a história da humanidade ensina que nunca houve uma ordem econômica nem sistema social imutáveis. Dai que a parte mais lúcida dos opressores procure sempre inserir-se nos novos poderes emergentes enquanto reforçam trincheiras midiáticas, judiciais e políticas para demorar e condicionar as transições.

Desse modo, se bem que os segmentos mais dinâmicos dos tecidos apropriadores resistem a perda de sua hegemonia, estão prontos para adaptar-se e mudar face a mudanças irrefreáveis de circunstâncias. Esta forma de agir poderia se assemelhar à dinâmica dos vírus que fantasiam com uma intervenção que corte de raiz essa dinâmica. Isto não é possível porque não há vacinas para enfrentar o caos concentrador, embora alguma longínqua semelhança poderia assinalar-se. Assim como em saúde é imprescindível transformar o contexto sanitário para tirar condições dos vírus irromperem e se espalharem, também existe um contexto de circunstâncias econômicas e políticas que possibilitam o desenvolvimento de tecidos financeiros apropriadores. Tal contexto inclui a desregulamentação dos movimentos de capitais; a impunidade para atrozes crimes que cometem grandes sonegadores; a ocultação e fuga de capitais espúrios; a ausência de equidade nos sistemas impositivos; a injustiça na aplicação do gasto público; a concentração que prima no comércio internacional; a conversão de mercados em espaços de oligopólios; a manipulação da mídia e a parcialidade nas orientações a grandes corporações digitais; e mercantilização da saúde, da educação e até das nossas emoções. Não há casualidades, mas causalidades que se acumulam e consagram a ordem prevalecente. Desmontar aquilo que possibilita a existência de tecidos apropriadores não é um desafio simples; ao contrário, exige encarar muitas frentes de intervenção para poder liberar e recuperar democracias capturadas por essas poderosas minorias.

Sem a intervenção de uma racionalidade justiceira, as caóticas dinâmicas continuarão convergindo a formas de concentração cada vez mais aceleradas e agigantadas, um destrutivo processo que não se esgota substituindo hegemonias. Um novo rumo e uma  outra forma de funcionar, objetivados na consecução do bom viver para todos e o firme cuidado ambiental, exigem decisões transformadoras exógenas à ordem hegemônica.  

O tecido apropriador articulado pela BlackRock

Um dos casos mais significativos de tecido apropriador é o liderado pela firma BlackRock, o maior fundo de investimentos, que cumpre o papel de pólo articulador de uma miríade de poderosas entidades financeiras. A BlackRock gere imensos recursos próprios e de terceiros que confiam em seus critérios de aplicação. Os serviços e competências que oferece a clientes podem ver-se aqui; e a sua organização, aqui. Recentemente foi o cúmulo, ao ser escolhida agente financeira do governo dos Estados Unidos, com o qual abre-se um enorme espaço de conflitos de interesses que ficam ocultos aos não especialistas.

Envergadura e critérios de investimento

Em 2019, a BlackRock gerenciou ativos por 7,4 trilhões de dólares (esta e todas as quantias do presente artigo apresentam-se tal como aparecem na documentação original em inglês; assim, por exemplo, um trilhão em inglês equivale a mil bilhões em espanhol) utilizando diferentes critérios de investimento. O mais usado, 5 trilhões de dólares, foi investir com estratégia passiva e baixo custo em iShares, isto é, em fundos que cotizam em bolsa e são diversificados. A renda depende de um indicador de bolsa (pode ser renda variável, matérias-primas, bônus, recursos monetários, etcétera), não da capacidade do administrador do fundo para comprar e vender. O segundo critério de investimento, US$ 2 trilhões, utiliza estratégias ativas de aplicação que têm um custo maior de gestão porque, para investi-los, dedicam recursos à escolha caso por caso. Um terceiro critério, mais de US$500 bilhões, são estratégias de manejo de dinheiro vivo.

Sua pasta inclui grande diversidade de fundos o quais, em conjunto, investem em bônus soberanos e de milhares de firmas -como ExxonMobil, General Electric, Coca-Cola, Johnson & Johnson, JP Morgan, mas também em poderosas emergentes da era digital -como Alfabeth-Google, Amazon, Facebook, Microsoft e Apple. Esta mistura de investimentos permite-lhe influir tanto em corporações tradicionais como em aquelas que dominam a informação e o comércio eletrônico.

Resultados

Em 15 de janeiro de 2020, os principais executivos informavam sobre os resultados de 2019, destacando que tinham conseguido lucro líquido recorde de 429 bilhões de dólares, 226 bilhões obtidos das iShares, 110 bilhões dos investimentos ativos e 93 bilhões das estratégias de dinheiro vivo. Também assinalaram que compensaram os seus acionistas com 3,8 bilhões de dólares combinando a distribuição de dividendos com o aumento do valor de suas ações por compra de ações da própria firma (buy back, em inglês). No segundo trimestre de 2020 obtiveram os seguintes resultados.

Sustento de sua hegemonia

Se bem que a BlackRock não é a proprietária mas a guardiã das ações e bônus nos que aplicou recursos de terceiros, ao exercer o direito a voto desses investimentos, tanto os empresários quanto os governos que receberam os recursos reconhecem o poder que detém. Além disso, a escala de recursos geridos lhe outorga vantagens respeito a outros investidores porque pode identificar e aproveitar melhores oportunidades utilizando seu poder de fogo para obter maiores ganhos e influir ao seu favor sobre políticas públicas de países soberanos.

De qualquer maneira, o resto dos fundos que investem a través da BlackRock retém graus de autonomia de decisão em sentido duplo. Por um lado, eles estão em condições de desenvolver portfolios próprios de colocações de perfis similares ou diferentes da pasta de investimentos da BlackRock. Por outro lado, conservam o poder de afastar-se desta como canalizadores de recursos de terceiros, inclusive como acionistas.

É pertinente então conhecer quem são os proprietários da BlackRock, para depois pôr o foco em um fato que em maio de 2020 sacudiu sua estrutura: a saída do seu maior acionista. 

Principais proprietários da BlackRock

Os principais proprietários da BlackRock detalham-se nos quadros seguintes -com uma importante ressalva: todos eles são, por sua vez, administradores de ativos de terceiros.

Top 10 Owners of BlackRockInc (en conjunto suman el 48,51 % del total)

Stockholder Stake  Shares
owned
Total value ($) Shares
bought / sold
Total change
PNC Bank, NA (Investment Management 22.04%     34,004,697      18,501,615,591    -11,068      -0.03%
TheVanguardGroup, Inc.     5.62%      8,666,199      4,715,192,214    -136,007      -1.55%
BlackRockFundAdvisors     3.97%      6,123,448      3,331,706,822    +262,271      +4.47%
Capital Research& Management Co….     3.95%      6,091,446      3,314,294,854    -1,270,934      -17.26%
SSgAFunds Management, Inc.     3.23%      4,982,330      2,710,835,930    -132,598      -2.59%
Wellington Management Co. LLP     3.08%      4,743,375      2,580,822,904    +17,147      +0.36%
ManagedAccountAdvisors LLC     2.09%      3,226,374      1,755,437,830    +890,047      +38.10%
JPMorganInvestment Management, I…     1.59%      2,449,368      1,332,676,635    +281,558      +12.99%
Norges Bank Investment Management     1.57%      2,423,172      1,318,423,653    -359,102      -12.91%
Morgan Stanley Smith Barney LLC (… 1.37%      2,115,871      1,151,224,252    +64,955      +3.17%

Também investem na BlackRock os denominados mutual funds, fundos nos quais expertos em finanças aplicam recursos de muita gente em muito dissímeis companhias. Os dez principais, no quadro que segue.

Top 10 Mutual Funds holding BlackRockInc  (suman 14,22% del total)

Mutual fund Stake  Shares
owned
  Total value ($) Shares
bought / sold
Total change
Vanguard Total Stock Market Index… 2.68%  4,127,095    2,245,511,119  +560,739     +15.72%
Washington Mutual InvestorsFund   2.41%  3,722,830    2,025,554,575  +473,997     +14.59%
Vanguard 500 IndexFund   2.08%  3,200,585    1,741,406,293  +487,379     +17.96%
GovernmentPensionFund – Global …   1.55%  2,382,686    1,296,395,626  -359,102    -13.10%
SPDR S&P 500 ETF   1.07%  1,643,910        894,434,992  -11,346  -0.69%
American BalancedFund   0.93%  1,429,700  777,885,473  +2,700  +0.19%
VanguardDividendGrowthFund   0.89%  1,379,729  750,696,752  -194,812    -12.37%
Fidelity 500 IndexFund   0.87%  1,347,572  733,200,449  +307,334     +29.54%
VanguardInstitutionalIndexFund   0.87%  1,346,519  732,627,523  +203,808     +17.84%
Vanguard Wellington Fund   0.87%  1,337,629  727,790,563   0  0.00%

Desse modo, os dois principais tipos de acionistas detém 62,73% da propriedade da BlackRock.

Um abalo na estrutura da BlackRock: a saída do PNC, o único acionista enorme

Até o dia 15 de maio de 2020, o PNC FinancialServiceGroup detinha 22,04% da propriedade da BlackRock. Nessa data desprendeu-se da totalidade das suas ações, que tinham um valor de 14,4 bilhões de dólares.

PNC é um holding baseado em Pittsburgh, Pennsylvania, que tem duas principais subsidiárias: um banco varejista -o nono maior dos Estados Unidos, com mais de oito milhões de clientes; e uma entidade, a Asset Management Group, que em março deste ano geria ativos de terceiros por 264 bilhões de dólares. 

Consequências deste reacomodamento de forças

Uma primeira consequência é que, ao ir embora o acionista que tinha o maior poder de fogo interno, 22,04%, a BlackRock desconcentra ainda mais a influência relativa dos seus acionistas proprietários. O seguinte em importância é o VanguardGroup, que possui 5,62% de propriedade da BlackRock -quatro vezes menos que o PNC mas com cinco mutual funds associados que somam outro 7,39% como acionistas. Vanguard é, ao mesmo tempo, o principal concorrente e aliado da BlackRock, segundo o jogo de investimentos cruzados. São aliados quando, ao investir nos mesmos fundos, empresas ou países, unem seu poder de voto; são concorrentes quando, ao escolher investimentos, excluem o outro quando trata-se de eleger próprios diretores nos fundos ou empresas onde investem em conjunto. Ao Vanguard lhe seguem outros quatro acionistas (um deles conformado por assessores da BlackRock), que possuem entre 4% y 3% do pacote acionário. A participação do resto de acionistas é menor de 2% uns e de 1% muitos mais. Ao desconcentrar a estrutura de propriedade, crescem os níveis de liberdade com que operam os diretores da BlackRock.

Outra consequência é que fica prejudicada a até agora intocável imagem da BlackRock, ao sofrer o abandono de uma poderosa entidade que, com essa venda de ações, reforça seu capital em 14,4 bilhões de dólares, com o qual cresce a capacidade de o PNC concorrer até em segmentos de mercado onde predomina a BlackRock.

Por sua vez, um capital muito maior permite ao PNC resolver dois desafios complementares. De um lado, aumenta a blindagem de segurança do seu banco varejista, em uma fase de perigosa instabilidade por quebrantos causados pela dupla pandemia -sanitária e econômica. Do outro lado, essa mesma blindagem permite à sua outra subsidiária mostrar-se com maior solidez, no atual turbulento contexto, para continuar atraindo e administrando ativos de terceiros.

Como reagiu a BlackRock? Não escassa de reflexos, mobilizou todos seus instrumentos para preservar sua hegemonia mediante a retenção de acionistas, a defesa do valor de bolsa de suas ações e a conservação ou incremento do seu fluxo de ingressos como gestora da aplicação de recursos de terceiros. Imediatamente solicitou autorização à Diretoria para aumentar os dividendos a serem transferidos aos seus acionistas. Também destinou 1,2 bilhões, em dinheiro, à compra das suas próprias ações, com o qual, ao mesmo tempo que sustentou seu valor de bolsa, assegurou-lhes maior rentabilidade aos acionistas (o buy back outorga a quem permanecem como acionistas maior participação no patrimônio da BlackRock e nos dividendos que se distribuem). Os diretores asseguraram, ademais, que aumentariam a rentabilidade dos seus investimentos. No caso de fundos que investem em firmas, isto implica exigir-lhes maior incisividade competitiva, incluindo conter salários e condições de trabalho. No caso de fundos com bônus de países que precisam reestruturar dívidas insustentáveis, isto se traduz em aumentar ao máximo a pressão na negociação de modo de assegurar-se apropriadas (para eles) condições contratuais.

Em síntese, quem conduz tecidos apropriadores sabe como enfrentar dificuldades sem sacrificar ingressos nem arriscar seus próprios interesses. Como sempre fazem, eles descarregam os custos de driblar situações adversas forçando ajustes “para abaixo”. Castigam trabalhadores, fornecedores e consumidores das grandes empresas em que investiram e impõem reestruturações de dívidas que perpetuam a submissão de países não centrais. Sua lei primeira consiste em não tocar a rentabilidade dos seus acionistas nem, claro, suas milionárias compensações.

“Do outro lado”, imensas maiorias sobrevivem sumidas, sem misericórdia, em abandonos e carências. Acontece que a apropriação de excedentes esteriliza recursos que os países poderiam dedicar ao bom viver dos seus povos e à proteção dos seus territórios. É ingenuidade perguntar-se se isto importa àqueles que lucram com os tecidos apropriadores. Nas reuniões em que tomam decisões (diretorias e comitês executivos), os temas e preocupações que se tratam sempre convergem sobre o propósito central que os anima: que lucro conseguir e como incrementá-lo. O tremendo impacto das suas decisões sobre a humanidade e o planeta no fazem parte da agenda. Se por acaso são confrontados para eles darem conta do seu jeito de agir, argumentam que não lhes corresponde considerar essas responsabilidades. Explicam que a missão que lhes foi assinalada foi maximizar ganhos e, se suas ações acabam castigando populações ou destruindo o meio-ambiente, esses são danos colaterais ou, com a hipocrisia de quem está habituado a abusar do seu poder, externalidades não desejadas. Dói e subleva o mundo dos apropriadores.   

Se o texto o interessou, pode assinar completando o formulário que aparece nesta página para receber uma vez por mês um breve resumo da edição em português de Opinión Sur

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *