Globo contra Terra: efeitos perversos e necessidade de utopías

A globalização tem dois efeitos perversos. Primeiro, seu crescimento sem limites ameaça a própria viabilidade da vida no planeta. Segundo, desarticula as sociedades e desorienta as pessoas. Até agora, o resultado é um comportamento sintomático e muitas vezes patológico. É urgente a necessidade para formular o que à primeira vista parece uma proposta contraditória: uma utopia para realistas.

Na reunião anual das elites mundiais na nevada Davos, o vice-presidente chinês, Wang Qishan, defendeu a globalização contra a recente onda de reação violenta nacionalista – essa fantasia ilusória de voltar ao local, encerrado entre paredes.

“O que necessitamos fazer é aumentar o bolo enquanto buscamos formas de compartilhá-lo de maneira mais equitativa”, disse Wang diante das personalidades. “Deslocar a responsabilidade pelos próprios problemas para outros não resolverá esses problemas”.

Essas palavras soam razoáveis. Descansam na premissa compartilhada por vários economistas e muitos líderes mundiais, a saber, que o crescimento (segundo medidas padrão) será e deverá continuar em uma trajetória constante e infinita de “progresso”, por fim, a imagem de um bolo cada vez maior[i].

Não obstante, a premissa é suicida. “Aumentar o bolo” – tanto se está melhor compartilhado ou não – logo requererá muitos planetas, e nós temos só um. Tão grande é o não dito desta e outras cúpulas, ainda que esteja seguro que é um pensamento preocupante para mais de um entre esses amos do universo.

De fato, muitos bilionários estão preparando bunkers e planos de escape para localizações seguras em seus países e no estrangeiro em caso de essas demandas por “uma forma mais equitativa” saiam de controle com o populacho. Mas, sobreviverão os privilegiados à fúria que pode ser desatada pela desigualdade do presente modelo de globalização em um planeta degradado? Em 2017, Evan Osnos do The New Yorker reportou que “em anos recentes o sobrevivencialismo[ii] se expandiu para zonas mais afluentes, enraizando-se no Vale do Silicone e Nova Iorque, entre os executivos tecnológicos, administradores dos fundos de investimento de alto risco (hedge funds) e outros em sua coorte econômica[iii]Como antigos faraós, essa elite de sobrevivencialistas – essas pessoas que se preparam para o colapso social – podem chegar a se sepultar em silos luxuosos enquanto arde o mundo. Porque, como disse o poeta Dylan Thomas,

“Não vás tão docilmente nessa noite linda;
Que a velhice arda e brade ao término do dia;
Clama, clama contra o apagar da luz que finda*.”

De acordo com Bruno Latour, em um inquietante livro que acabo de terminar de ler, se todos os assinantes do Acordo de Paris sobre o Clima de 2015 levassem a cabo seus respectivos planos de modernização, “não haveria planeta compatível com suas esperanças de desenvolvimento[iv]“.

Quando o crescimento (como fora definido e promovido pelo capitalismo tardio) ultrapassar o anfitrião, o anfitrião morrerá. Ou bem o crescimento se detém ou o anfitrião expira. Não é esta uma definição de um câncer – uma condição ou coisa maligna que se esparsa destrutivamente?

Logo chegaremos a um ponto em que não haverá mais lugar para albergar o Globo da globalização. O Globo que aceitamos como meta, que é adorada por ideologias como o neoliberalismo, bem seria o inimigo da Terra onde vivemos.

A escolha é clara: vida ou crescimento. A morte (ou algo pior, uma vida abarrotada, regrada e desanimadora[v] virá não da escassez como no passado mas da perversa exuberância e da distribuição desequilibrada. Chegou o momento de redirecionar os esforços humanos para longe da presente globalização e para a pacificação da luta pela existência, o real telos[vi] da história e uma meta que escapou às gerações anteriores[vii].

Se não for pelas exigências do capitalismo tardio (que perpetua artificialmente a luta pela existência), as questões que hoje aparecem como os maiores problemas – por exemplo, o impacto da automatização – seriam, em troca, a porta de acesso a uma vida melhor, onde a prosperidade (enquanto realização) substitui a riqueza

As gerações que vivem hoje tem os meios e a oportunidade para mover-se para uma meta diferente, tem a necessária motivação? Estamos preparados para enfrentar uma situação em que o trabalho – que define o homo faber (criador[viii]) mas que o capitalismo há muito reduziu a “labor” – não é mais a fonte de renda e identidade como as conhecemos? Pode a vida danificada[ix] – inclusa a própria – se regenerar a si mesma e engendrar uma sociedade mais decente? O obstinado compromisso com o status quo corre profundo por todos os extratos da sociedade, também entre os que se queixam que são abandonados pela globalização. Estas são as perguntas que eu formulo para provocar o leitor e a mim mesmo. Quer aconteceria se a boa sociedade que todos necessitam fosse a sociedade que ninguém quer? Qual é o papel da utopia hoje?

Quase sete décadas atrás, o grande sociólogo estadunidense, Robert K. Merton, produziu um marco analítico para compreender a forma em que as pessoas adaptavam em seu comportamento tanto às ideologias quanto aos condicionamentos estruturais. Ele idealizou duas simples matrizes (tábuas quádruplas) sobrepostas uma sobre a outra, baseadas nos meios e fins socialmente definidos, em termos de normas culturais (Matriz 1) e forças estruturais (Matriz 2). Aplicou este esquema ao “sonho americano”, isto é, à superênfase no “êxito” econômico da cultura estadunidense[x] .

O estudo de Merton revelou que (a) a ideologia põe mais ênfase nas metas que nos meios de êxito (monetário e de status), e (b) que a estrutura social põe mais obstáculos no caminho para o êxito de alguns grupos em comparação a outros. Portanto, aqueles grupos que fizeram ambos tanto internalizar as metas da cultura quanto ter acesso privilegiado aos meios (como a classe alta), estão satisfeitos com sua sociedade e encontram sua conformidade satisfatória. Por outro lado, grupos que aceitaram os termos da cultura (o sistema de valores) mas se encontram mais condicionados em sua capacidade de alcançar as metas de maneira legítima são mais propensos a inovar ou se desviar.

Para além desses dois, outros grupos podem trabalhar no sistema mas perder de vista as metas e os valores gerais, portanto, comportando-se um pouco como robôs enquanto outros grupos renunciam tanto às metas como aos meios, e se retiram da sociedade geralmente de forma patológica.

Merton classifica esses quatro grupos como os conformistas, os inovadores, os ritualistas e os que se retraem, respectivamente. Merton só insinua uma quinta categoria (fora de suas tabelas) composta por aqueles que diretamente propõem metas diferentes e meios diferentes. Ele pode tê-los chamado reformistas sérios ou inclusive revolucionários.

A dupla matriz de adaptação de Merton, baseada no “ajuste” entre ideologia e estrutura social

METAS
+
MEIOS + (1)   Conformidade

++

(Tudo estará bem)

(3)   Ritualismo

-+

(Avançar sem pensar)

(2) Inovação

+-

(Fazer algo diferente)

(4)   Retraimento

(Escapar via fantasia, drogas ou suicídio)

 (5) Transvalorização

+’ +’

(Um programa radical novo)

Como este velho porém útil esquema é correto quando consideramos a presente globalização? Oferecerei a seguinte proposição neste artigo, que desenvolverei em futuras entregas.

Os modos de adaptação entre a ideologia e a estrutura social de Merton ou, se você preferir, entre os valores e atitudes, por um lado, e o que Max Weber chamou de “oportunidades de mercado”, por outro, se desenvolveram dentro do marco de Estados-nação. Por exemplo, poderíamos distinguir entre o modelo nórdico, o anglo-saxão e o chinês, cada um com uma forma diferente de articular a estrutura social (p.ex., alguns mais igualitária que outras) e sistemas de ideias (p.ex., individualismo versus coletivismo) . Mas estes eram países separados.

O que a globalização fez foi quebrar todos os marcos, deslocando as pessoas e as ideologias, com o resultado geral da desarticulação e a desorientação, que os sociólogos sempre chamaram anomia[xi] . Esta é a novidade da globalização, gerada e impulsionada pelas dinâmicas conjuntas do capitalismo tardio e a tecnologia (TIC).

Apresento o esquema de Merton para clarificar o estudo da globalização e a forma em que afeta a sociedade; isto é, a forma em que afeta como as pessoas creem e se comportam. Neste curto artigo, só antecipei algumas hipóteses de trabalho, para serem exploradas em detalhe no futuro próximo. Elas são:

  • As dinâmicas da globalização converteram aqueles do quadrado 1 (conformistas) em uma cada vez menor e rica elite, cuja renda e riqueza se encontram além da imaginação do resto da sociedade. Inclusive sua localização física é indeterminada.
  • Aqueles no quadrado 2 (inovadores) incluem cientistas, descobridores e novos empresários que às vezes acessam ao quadrado 1, mas também a uma obscura rede de tráfico de drogas, seres humanos e armas que se infiltra em cada nível da sociedade; Sua localização também é indeterminada.
  • Aqueles do quadrado 3 (ritualistas) incluem empregados públicos, militares e pessoal de segurança assim como segmentos dos aposentados. Sua localização é determinada.
  • Aqueles do quadrado 4 (os que se retraem) compreendem todas as pessoas deslocadas e marginalizadas tanto pelos processos econômicos como pelos tecnológicos. como os mineiros dos Apalaches ou os antigos trabalhadores manuais de indústrias já desaparecidas ou realocadas no meio-oeste estadunidense, ou no interior inglês inclinados ao Brexit, ou aqueles atrasados da Alemanha ou deste ou daquele distrito francês de Reims. Esses são móveis quanto à mobilidade social descendente mas fisicamente imóveis. Constituem uma massa disponível para “mobilização secundária” (um processo que descrevi em anteriores artigos para Opinión Sur e em meu último livro Strategic Impasse[xii]

Em todas estas hipóteses, é fácil perceber como a vida humana, incluindo o conflito social, se tornou anômica. Pelo momento, a expressão política daquela anomia é a emergência do nacionalismo, o populismo reacionário, as políticas identitárias e a polarização improdutiva em cada um dos domínios do discurso e da ação política.

Também proponho seguir estas observações e hipóteses tentativas em um futuro com uma mirada ao que o misterioso quadrado 5 poderia aparentar e suas chances para emergir e se desenvolver. Este quadrado contém, nas palavras de Rutger Bregman, uma utopia para realistas[xiii] . Termino este artigo com uma famosa citação de Oscar Wilde, com a qual o autor abriu seu próprio livro:

“Há um país no qual a Humanidade está constantemente aterrissando.

E quando a Humanidade aterrissa ali, olha para fora, e,

vendo um país melhor, iça velas e empreende a travessia. O Progresso é a Realização das Utopias.

Então, como se costuma dizer, mantenham-se em contato.”

 

* N.T.: tradução de Augusto de Campos.

[i] Não obstante, há uma conscientização crescente acerca das deficiências do pensamento econômico; por exemplo, a do Prêmio Nobel de economia Edmund S. Phelps, em “The Three Revolutions Economics Needs (As três revoluções que a economia precisa), citado em Project Syndicate, 23 de janeiro de 2019. Alguns economistas trataram de redefinir crescimento e inventaram novas medições do “êxito” econômico, até agora só com resultados limitados. Um exemplo é Diane Coyle, The Economics of Enough (A economia do suficiente), Princeton University Press, 2011.

[ii] 2Survivalism (sobrevivencialismo) é o nome em inglês que recebe o movimento de indivíduos ou grupos (chamados em inglês survivalists), quem se prepara ativamente para uma possível futura alteração da ordem política ou social, seja em nível local, regional, nacional ou internacional.

[iii] Evan Osnos, “Doomsday Prep for the Super-Rich (Preparação para o dia do Juízo Final dos super ricos),” The New Yorker, 30 de janeiro de 2017.

[iv] Bruno Latour, Down to Earth.  Politics in the New Climactic Regime (Volta à Terra. A política do Novo Regime Climático), Cambridge, Polity, 2018, p.5.

[v] Um modelo de tal futuro distópico já está exibido em campos de reeducação política em Kashgar (em chinês, 喀什) município do noroeste da região chinesa de Xinjiang. Sugere que o socialismo e o capitalismo compartilham uma mentalidade similar quando se refere ao disciplinamento da força de trabalho.

[vi] Fim ou propósito em virtude de que se realiza algo (Aristóteles).

[vii] Esta é a mensagem central do livro meio esquecido de Herbert Marcuse, Eros and Civilization (Eros e Civilização), Boston: Beacon Press, 1955. Seguindo a Marcuse, em 1972 William Leiss publicou um estudo intitulado The Domination of Nature (A dominação da natureza) onde explora um novo enfoque baseado nas possibilidades da “liberação da natureza”. A atual dinâmica planetária faz que estes estudos adquiram muita relevância hoje.

[viii] “Homo Faber” (em latim, homem laborioso) é um conceito filosófico articulado por Hannah Arendt e Max Scheler.

[ix] Tomo a expressão de Theodor W. Adorno, Minima Moralia: Reflections From Damaged Life (Minima Moralia: reflexões de uma vida arruinada), London, Verso, 1978 (originalmente de 1951).

[x] Robert K. Merton, Social Theory and Social Structure (Teoria social e estrutura social), New York: Free Press, 1949, revisado em 1968.

[xi] Sempre seguindo o estudo de Emile Durkheim sobre o suicídio dos anos de 1890.

[xii] Juan E. Corradi, Strategic Impasse. The Social Origins of Geopolitical Disarray (Impasse estratégico. A origem social da desordem geopolítica), New York and London: Routledge, 2018-19.

[xiii] Rutger Bregman, Utopia for Realists and How We Can Get There (Utopia para realistas e como chegar a ela), London: Bloomsbury, 2017, originalmente publicada nos Países Baixos em 2014 como Gratis geld voor iedereen: en nog vijf grote ideen die de wereld kunnen veranderen.

 

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