Fake news e redes sociais no processo eleitoral brasileiro

O papel das redes sociais e os aplicativos de mensagens diretas (basicamente Whatsapp) na campanha eleitoral de Jair Messias Bolsonaro é um dos temas centrais das novas formas de configuração política na América Latina.

As notícias falsas, a propaganda, a construção de um sentido comum acrítico e a semeadura de ódio não são práticas inovadoras nem na história política nem na guerra. A tentativa de configurar sujeitos passivos e maleáveis tem sido estudado há séculos como substrato das lutas ideológicas orientadas a captar a vontade social coletiva e dirigi-la em proveito de interesses corporativos. O que mudou é o canal de sua propagação, sua direção e o território onde se fazem mais efetivas a circulação de mitos, versões e lemas convincentes e sensibilizadores.

A viralidade e a interatividade suplantaram a histórica verticalidade do discurso político. Estas substituíram a característica direção descendente dos conteúdos propostos pelo partido, o programa e o candidato. A campanha de Bolsonaro se sustentou com gestualidades brutais e se apoiou em mitologias presentes nos medos sociais acumulados, muito mais que em propostas e projetos. Para uma grande parte da população brasileira, sobretudo aquela que possui menos capacidade crítica de avaliação de conteúdos, a complexidade intrínseca das políticas públicas é percebida como uma enteléquia arrevesada e incompreensível. Lula, um trabalhador metalúrgico, deixou em seu lugar um brilhante acadêmico paulista. Bolsonaro é a retórica desnuda e brutal do quartel. O PT endossou a simplicidade em um militar.  

Os brasileiros mudaram as formas de interação comunicacional e o acesso à informação. O celular passou a ser receptor prioritário dos intercâmbios noticiosos e seus habitantes acessam a novidades a partir do Whatsapp que conta com 120 milhões de usuários jovens e adultos, integrados em redes de afinidade que brindam uma significativa pátina de confiabilidade sobre o que enviam e recebem. Ditos usuários representam 80% de todos os eleitores brasileiros e a campanha de Bolsonaro se efetivou fundamentalmente por essa via, somada à plataforma de quatro redes sociais: Facebook, Twitter, Instagram e YouTube.

Segundo um informe elaborado pelo Centro Estratégico Latinoamericano de Geopolítica (CELAG), a distribuição entre receptores de redes sociais de Bolsonaro, Haddad e Lula mostra uma clara preponderância do primeiro sobre todos os outros dois, incluso na somatória de ambos dirigentes petistas. A particularidade desses dados é que o peso etário dos seguidores se assenta nos mais jovens, os denominados millenials, que tem limitada exposição à TV, não ouvem rádio de frequência mas de internet e que se informam unicamente por meio de redes segmentadas por grupos de interesse (NOTA 1).

Seguidores de Redes Sociales (en millones de usuarios)
  Bolsonaro Lula Haddad
Facebook 7 5 1
Twitter 1,5 0,5 0,8
Instagram 4,5 0,5 0,5
  13 6 2,3

Uma grande parte da campanha foi instrumentada por consultoras experts em algoritmos e análises de audiências, capazes de detectar os medos e aversões emocionais mais profundas que atravessam a sociedade. Vários desses temores foram previamente inoculados com inusitada persistência por medos hegemônicos, e logo dirigidos a específicos segmentos detectados com precisão demográfica e estatística. Estes últimos terminaram constituindo-se no ativismo político central do capitão do exército, exonerado em 1988, sob a acusação de programar atentar com explosivos na central de abastecimento Adutora do Guandu, que provia água potável ao município do Rio de Janeiro. O passo subsequente consistiu em utilizar a milhares de influencers de redes (previamente detectados por possuir grande quantidade de seguidores) para multiplicar geometricamente as ameaças, as mentiras e as ocasionais tergiversações que poderiam ser maximizadas na campanha. O passo final incluiu o uso de aplicativos robotizados capazes de analisar o big data inicial (fornecido pelos ensaios de recepção), e dispostos a avaliar o êxito ou fracasso das fake news. Com essa informação, os analistas se reorientavam e reposicionavam de forma precisa e ajustada nos eixos mais consentidos.

O círculo viral predisposto para conseguir uma onda eleitoral positiva aos interesses da direita brasileira se configurou a partir de sete eixos consensuados com a equipe de campanha de Bolsonaro, de que participa Steve Bannon, ex-chefe de assessores de Donald Trump. Junto a este agiram integrantes do Comando de Comunicações de Guerra Eletrônica do Exército, capacitados em sociologia, antropologia, comunicação e estatística, saberes dispostos para Táticas e Procedimentos Operacionais (TPO), indubitáveis dispositivos de guerra psicológica (NOTA 2). A espionagem não foi alheia a esta operação: segundo o analista Rodrigo Lentz, Fernando Haddad foi monitorado ilegalmente por equipes dirigidas pelo general Sérgio Etchegoyen, atual integrante do Ministério de Segurança Institucional da Presidência do Brasil (NOTA 3).

Os capítulos de intoxicação comunicacional apócrifos, escolhidos de forma prioritária para deslegitimar Fernando Haddad e o PT foram os seguintes: (1) a existência de um suposto “kit gay”, orientado a sexualizar meninas e meninos, que teria sido distribuído por Haddad em escolas públicas, enquanto era ministro da educação do governo Lula; (2) a apelação à crise da Venezuela como potencial futuro de um governo petista. A difusão de gôndolas vazias com o rótulo do chavismo foi a imagem central que acompanhou esta viralização; (3) a propagação de uma imagem de uma senhora supostamente agredida por militantes de esquerda (com o rosto deformado por golpes), quando em realidade se tratava de uma fotografia de uma atriz que tinha tido um acidente; (4) a suposta defensa do incesto por parte de Haddad, denunciado por um de seus ideólogos da extrema direita, Olavo de Carvalho; (5) a pretensa intenção do PT de legalizar a pedofilia; (6) a difusão de uma foto de Dilma Rousseff como integrante de um batalhão militar cubano.

Nenhuma dessas viralizações seria eficaz se não fosse dirigida especificamente aos que tem menos capacidade crítica como para negá-las ou contrastá-las com a realidade. Esse é o papel dos robôs que analisam big data que podem orientar mensagens mais efetivas a cada particular segmento social. O historiador Marc Bloch, fuzilado pelos nazistas por sua dupla condição de judeu e membro da Resistência Francesa em 16 de junho de 1944, perguntava-se em um texto de 1921:

 “As notícias falsas, em todas as suas formas, tem sido parte da humanidade. Como nascem? (…) Uma falsidade só se propaga e se amplifica, só cobra vida com uma condição: encontrar na sociedade na que cobra vida um caldo de cultivo favorável. Nele, de forma inconsciente, os homens expressam seus preconceitos, seus ódios, seus temores.” As fake news não são novas. Só exigem sujeitos que aceitem crê-las para dar cabimento a determinados medos instalados. A solução de fundo supõem a construção de cidadãos críticos. Pouco manipuláveis por manipulações simbólicas.

Albert Camus, logo na Segunda Guerra Mundial publicava A Peste. No último parágrafo afirmava: “Pois ele sabia que esta multidão ditosa ignorava o que se pode ler nos livros, que o bacilo da peste não morre nem desparece jamais, que pode permanecer durante decênios dormido nos móveis, na roupa, que espera pacientemente nas alcovas, nas bodegas, nas maletas, nas fraldas e papéis, e que pode chegar um dia em que a peste, para desgraça e aprendizagem dos homens, desperte seus ratos e os mande morrer em uma cidade ditosa.” A peste voltou. Chama-se Bolsonaro. Um Macri sem marketing. E desaforado.

Notas:

[1]. http://www.celag.org/el-neoliberalismo-millenial-la-campana-bolsonaro/ 

[2]. Livro Branco de Defesa Nacional 2016, pag 90. En: https://www.defesa.gov.br/arquivos/2017/mes03/livro_branco_de_defesa_nacional_minuta.pdf 

[3]. Lentz, Rodrigo: Militares, desinformación y batalla política. https://www.cartacapital.com.br/politica/militares-des-informacao-e-batalha-politica

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