Depois dos Estados Unidos. Segunda Parte. Onde foi parar o poder brando?

A antiga distinção entre poder duro (força militar) e poder brando (poder de inspiração) tem sido substituída pela distinção entre força bruta e eficiência.

O professor de Harvard, Joseph Nye, é pai do conceito de soft power (poder brando) (Joseph Nye, Soft Power: The Means to Success in World Politics. 2004, New York: Perseus Books.). Sustentou, em livros e artigos muito celebrados, que o poder de persuasão (outros dirão de sedução) é superior ao poder de dissuasão. Certamente, não nega o professor que o poder, por mais legítimo e persuasivo que seja, se baseia na última instância (ultima ratio, diria Max Weber) na força, isto é, na capacidade de fogo, e não só na habilidade de jogo.

É bem conhecida uma anedota que provém da Segunda Guerra Mundial. Em uma reunião dos aliados vitoriosos em Yalta, Winston Churchill sugeriu que seria importante convidar o Papa (Pio XII). Mas Josef Stalin espetou uma pergunta definitiva e definidora, “E quantas divisões tem o Papa?” É provável que Stalin tenha proferido sua depreciativa pergunta em alguma outra ocasião, o que gostava de repetir. O importante é o cínico reconhecimento da força bruta na relação entre nações. “O poder político cresce com o canhão de uma arma de fogo”, dizia Mao Zedong.

Efetivamente, a brutalidade dos ditadores do século passado os sustentou no poder e projetou o domínio de suas nações em vastas zonas do planeta, deixando em sua marcha um tendal de mortes que se contam por dezenas de milhões. Não obstante, em que pese o enorme poder militar da União Soviética, seus representantes perderam a partida em uma humilde batalha de relações públicas. Não foram capazes de oferecer nada convincente em troca de uma atrativa amostra de aparatos domésticos em uma cozinha modelo no pavilhão norte-americano de um feira em Moscou em 1959. O debate, improvisado, foi nada menos que entre Nikita Krushchev e Richard Nixon sobre as vantagens de uma casa modelo com lava-louças norte-americano. The American way of life, tal como aparecia na revista Time, resultava irresistivelmente atrativa. A liberdade de expressão e de eleição, ainda reduzida à liberdade de consumo de uma dona de casa em Levitton, Nova Iorque, e que pese a fanfarrice de Krushchev, triunfava sobre a austera disciplina socialista.

O professor Nye foi, até agora, o valente defensor acadêmico da superioridade do lava-louças (Ainda que não tão eloquente como o finado professor sueco Hans Rosling. https://www.ted.com/talks/hans_rosling_and_the_magic_washing_machine). Mas não sejamos injustos com ele. Além dos eletrodomésticos e das novas tecnologias que lhe sucederiam, desde o computador até a telefonia inteligente, o poder brando reside na capacidade de um ator político, como por exemplo, um Estado, para incidir nas ações ou interesses de outros atores valendo-se de meios culturais e ideológicos (inclusive a propaganda comercial da sociedade de consumo) com o complemento de meios diplomáticos.

Na era de Trump, a capacidade dos Estados Unidos para incidir nas ações e interesses de outros países por sua atração cultural e ideológica e o complemento de meios diplomáticos, está diminuindo velozmente e talvez de forma irreversível. O presidente não tem escrúpulos em difundir de forma escandalosa as preferência por ditadores e racistas, em desqualificar os aliados tradicionais e elogiar seus antigos inimigos. Predica a divisão e o ódio em vez da unidade e a reconciliação. Atua como um déspota ainda que, por sorte, até agora, podado por instituições independentes. Entre outras coisas, Trump desmontou sistematicamente o serviço exterior, ao ponto que os EUA carece de suficientes diplomáticos de carreira para levar a cabo qualquer iniciativa de poder brando (Essa demolição foi obra do secretário de Estado Rex Tillerson, que provou que o executivo máximo da maior companhia petroleira pode se comportar no mundo da diplomacia como o burro de uma escola. Cumprida sua missão, o sr. Tillerson será descartado sem contemplações pelo pitoresco presidente autoritário.). Não sabemos por quanto tempo continuará a destruição institucional e nem sequer se este regime odioso acabará com o atual período presidencial.

Entre os poderosos que rodeiam este novo Nero (Sobre esses personagens, o rimbombante escritor e político italiano Gabriele d’Annunzio dizia, em uma ocasião, “è un cretino con qualche lampo d’imbecillità” (“é um cretino com algum fulgor de imbecilidade”.), e, em outra, “um cretino fosforescente”.), o único personagem racional é nada menos que um general, hoje chefe do Ministério da Defesa, isto é, o Pentágono. O general Jim Mattis é parco e cauto. Frente aos soldados, ouviram-no dizer: “Vocês devem se manter firmes até que nosso país volte a mostrar entendimento e respeito entre nós e diante do mundo. Vamos recuperar o poder de inspiração”. A sua é a única voz cordata em um ambiente de ignorância, atropelo e intolerância. Tem, todavia, fé no poder brando que alguma vez os Estados Unidos exerceram, e que ele denomina o poder de inspiração. Para Mattis, a tormenta nacional-populista-autoritária é passageira. Segundo o general, tempos melhores virão.

Não obstante, enquanto o general espera, as potências rivais, outrora criticadas por sua afeição ao despotismo e seu desprezo pelos direitos humanos, respiram aliviadas: já não têm que temer uma lição de moral norte-americana. “Somos iguais”, festejam. Trump admira Putin e desconfia da Sra. Merkel. Tanto lhe vale um Duterte quanto um Macron. Como reza o tango Cambalache: “Vivimos revolcaos en un merengue y en un mismo lodo todos manoseaos…”

No novo regime geopolítico em que vivemos, com a perda de liderança moral por parte do Ocidente, cobra pretensões outra dicotomia: já não a antiga distinção entre poder duro e poder brando, mas sim uma nova entre a força e a eficiência. Os Estados Unidos mantêm o maior poderio militar da história, precisamente o imenso e custoso aparato presidido pelo general Mattis. Mas essa força pura já não adorna o poder de inspiração. diante da força militar norte-americana, erguem-se outros aparatos militares que pouco a pouco tratam de alcançá-la, sem lográ-lo, porém. A essa força crescente novas potências somam outro tipo de poder: a eficiência. Força com eficiência, frente à força com decaída inspiração.  

Como exemplo, basta um conto. Em sua recente viagem a China, o presidente Trump se jactou das concessões menores que obteve do astuto Sr. Xi, a quem adulou com faustosos festejos. O presidente Xi assim evitou discutir com seu energúmeno interlocutor os temas em que tem fixada sua estratégia. A China sabe onde vai; Trump, não. Xi não se faz as perguntas que o norte-americano nem suspeita, a saber: em que mundo vivemos? Quais são as grandes tendências em matéria de clima, de globalização e interdependência, em matéria de tecnologia e do futuro mundo do trabalho? A China responde a essas perguntas estratégicas com investimentos enormes em sistemas de energia limpa e de veículos elétricos, porque sabe que em 20 anos mais terá um bilhão adicional de pessoas no planeta. e que lhes será necessário respirar. Trump, em troca, quer defender as obsoletas contrais de carbono onde supõe encontrarão novo emprego seus eleitores.

Então, a China se situará na vanguarda de duas grandes indústrias: transporte e energia.

Em matéria de globalização, a iniciativa chinesa de unir os mercados da Ásia Central em uma só rota e cinturão e estabelecer um novo banco asiático de desenvolvimento lhe darão um enorme poder não militar. Em matéria de novas tecnologias, os chineses têm um plano de fazer o “Made in China 2025” muito mais que um rótulo para estampar em sapatilhas, mas em dez indústrias estratégicas: veículos elétricos, novos materiais, energia solar e eólica, inteligência artificial, circuitos integrados, indústrias biofarmacêuticas. computação quântica, comunicação móvel tipo 5G e robótica.

Trump, em troca, retirou os EUA da Associação Comercial Trans-Pacífico, o que equivale a um desarmamento unilateral em matéria de comércio mundial.

Poderia continuar a litania de barbaridades que a nova administração em Washington impõe, mais que ao mundo, a seu próprio país. Dou o exemplo da China por uma simples razão: ilustrar a capacidade de concentração nos desafios que realmente importam e na capacidade de planificar a médio e longo prazo. Em um seminário acadêmico poderíamos destacar defeitos importantes no modelo chinês de planificação vertical e autoritária. Não obstante, no mundo real, enquanto os EUA e, por extensão, todo o Ocidente perde tempo em desavenças e em ideologias vãs, entre elas um nacionalismo anacrônico, a China (poderíamos agregar outro gigante que avança: a Índia) faz avanços enormes em eficiência.

Esta nova realidade não escapa à perspicácia do professor Nye. Em um artigo recente, publicado no Financial Times (3 de novembro de 2017), argumenta que a atual rivalidade entre a China e os EUA, vista por um marciano hipotético, favoreceria os norte-americanos por quatro razões geopolíticas específicas, a saber: a vantagem geográfica de estar situados entre dois oceanos, a auto-suficiência em matéria de energia, o comércio e o domínio do dólar como moeda. Segundo o professor são os ases na mão do jogador americano na atual partida de poker com a China.

Sobre este argumento, farei duas observações. Primeiro, tomo nota que o pai do poder brando só apresenta variáveis duras em sua análise: as velhas constâncias da geopolítica tradicional. Pergunto-me, onde foi parar o famoso poder de inspiração? Segundo, posso afirmar com bastante certeza que o professor se equivoca de metáfora ao se referir à rivalidade sino-americana. Os chineses não jogam poker, jogam Go. Ainda que suas origens não estejam claras, este jogo apareceu há uns 4.000 anos na China. O Go não é muito conhecido no Ocidente, mas resulta tremendamente popular em países como a China, Coréia ou Japão.

No Go, os jogadores devem conquistar o maior território possível colocando umas pedras brancas e negras sobre um tabuleiro. Parece simples, e de fato suas regras o são, mas não há que deixar-se enganar pelas aparências. As possibilidades de jogo são muitas e dependem do caráter e a inteligência do jogador. Em uma partida de Go, o tabuleiro geopolítico de hoje apresenta notáveis vantagens chinesas.

Melhor que a tese de Nye me parece o argumento de Henry Kissinger em seu monumental estudo sobre a China (Henry Kissinger, Sobre a China (2011, New York: Penguin Books).). Segundo o Dr. K, como é chamado, a estratégia chinesa (baseada no Go) é centrípeta (voltar a ser o centro do mundo como império tributário), com objetivos precisos mas distantes, que requerem tempo e paciência. Os Estados Unidos e, em especial, seu representante caricatural Trump, jogam para ganhar no curto prazo, com objetivos parciais e muita impaciência. Eles gostam de jogar com cartas de poker mais que com as fichas do Go. A partir do ponto de vista estratégico de mais longo prazo tem quatro desvantagens, a saber: uma infraestrutura que se desmorona, uma taxa de crescimento baixa, uma regressão política para uma democracia manipulada e não-liberal, e uma força militar que, apesar de seu poderio e extensão, não sabe ganhar guerras.

Se o imaginário personagem extraterrestre observasse o jogo geopolítico China vs. EUA, na ficção científica do professor Nye, e equipado com o robô de inteligência artificial inventado pelo Google que se chama Alpha Go (Um programa informático do Google chamado  AlphGo ganhou uma partida de um campeão mundial de jogo de Go. http://www.abc.es/ciencia/abci-ordenador-google-vence-campeon-mundial-juego-milenario-201603091056_noticia.html), não apostaria tão facilmente em um triunfo norte-americano.

Ah, quase me esqueço de citar um índice muito significativo do poder duro (e do brando também): a demografia. Os Estados Unidos contêm só 4,4% da população mundial. Sic transit gloria mundi (a glória do mundo é transitória).

 

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