Da desigualdade à instabilidade sistêmica

Uma vez instalada, a desigualdade constitui-se em um crítico componente da dinâmica concentradora que, ao contrair a demanda efetiva, contribui para gerar os recorrentes episódios de instabilidade sistêmica.

Um crítico fator que enerva o funcionamento econômico é a crescente desigualdade existente entre países e, dentro de cada país, entre setores sociais; desigualdade gerada por um processo de acumulação que, por não mediar decisões políticas contrárias, tende a concentrar a riqueza.

Lutas e tensões em nível global

Quando, em países centrais, produzem-se sérios estrangulamentos por uma oferta produtiva que não cessa de crescer e que depende, para sustentar esse crescimento, de uma demanda que não acompanha, o funcionamento sistêmico dá braçadas em busca de soluções que lhe permitam prosseguir com sua estrutura intacta. Esse tipo de soluções que facilitam o acesso ao consumo mas não à renda (implicaria tocar a estrutura distributiva) requerem de um sistema financeiro que empurre com tudo que puder os limites de viabilidade do processo concentrador; atua como um efêmero dique que posterga até onde pode o estalar das temíveis borbulhas especulativas.

Ao mesmo tempo, os países centrais procuram compensar sua contraída demanda interna com agressivas políticas de acesso aos mercados do resto do mundo. Mercados que acham muito difícil resistir a essa agressão, pior ainda, quando governos neoliberais impõem uma abertura de importações que varre com suas incipientes indústrias e serviços.

No interior das economias centrais reproduzem-se as desigualdades derivadas do processo concentrador com o agravante de sofrer estendida pobreza e funcionar com um débil aparato produtivo, frágil mercado interno e frequentes estrangulamentos de setor externo. Esses fatores e as duras circunstâncias internacionais desestabilizam seu funcionamento econômico dando marcha a uma recorrente instabilidade que compromete seu desenvolvimento.

Impactos da concentração

* A concentração da riqueza leva à segmentação da demanda efetiva. Os setores concentrados, com necessidades básicas plenamente satisfeitas, desenvolvem uma demanda conspícua que envia sinais ao aparato produtivo para que produza esse tipo de bens e serviços. Consagra-se, assim, uma péssima destinação da poupança nacional que, por sua vez, gera interesses corporativos associados com a sustentação desse padrão de consumo e do processo de concentração que o sustenta.

Ao lado dos setores concentrados, coexistem tanto setores de baixa renda que não conseguem satisfazer suas necessidades básicas, formando uma muito diminuída demanda efetiva, como setores médios que cobrem suas necessidades básicas e sobre esse nível tendem a reproduzir boa parte do padrão de consumo supérfluo.

* Ao mesmo tempo, os setores beneficiados pelo processo concentrador acumulam enormes excedentes financeiros que requerem ser reciclados. A contraída demanda efetiva reduz oportunidades na economia real, enquanto que o sistema financeiro cria sofisticados produtos para absorver os excedentes que necessitam ser reciclados obtendo no processo altos retornos. Dessa forma, instala-se um perigoso circuito especulativo com produtos financeiros que competem em termos de taxas de retorno e risco inerente a cada transação. Os maiores retornos são conquistados com audazes engenharias financeiras e certo encobertamento dos riscos implícitos, como ocorreu com os empréstimos hipotecários sub prime e outros empréstimos para o consumo (cartões de crédito). Ao não se ampliar sua base de sustentação, este processo se torna inerentemente insustentável.

* Diante dos desajustes derivados do processo concentrador, como reage o sistema econômico? Uma solução orgânica para assegurar que o crescimento produtivo possa se manter e não se estrangule é reduzir ou reverter a concentração de renda. Com isso, amplia-se o mercado consumidor com base em renda genuína e se geram simultaneamente novas oportunidades na economia real para absorver os recursos disponíveis por meio do investimento produtivo.

Lamentavelmente, não é esta a rota que prima no mundo contemporâneo. Em troca, em ausência de uma intervenção corretora exógena, o sistema econômico reproduz sua forma de funcionar sem transformar a tendência à concentração. Em lugar de ampliar a renda genuína de setores médios e baixos, provê-lhes de financiamento que, depois de alguns ciclos creditícios, gera uma prolongada situação de superendividamento impossível de sustentar. Soluções creditícias podem amortecer os impactos da concentração, mas se não se transformar a dinâmica desse processo, cedo ou tarde se desestabiliza o sistema econômico e aparecem as crises.

Estratégias corretoras

Para serem efetivas as soluções – sempre singulares segundo países e suas circunstâncias – deveriam incluir um comum denominador que é transformar o processo econômico que leva à tremenda concentração de riqueza, incluindo melhorias na renda genuína das grandes maiorias.

As estratégias corretoras abarcam múltiplas dimensões entre as que se destacam as seguintes:

  • Adotar macro políticas orientadas a abater desigualdade em matéria fiscal, de gasto público, de estabilidade monetária, de canalização da poupança para o investimento real.
  • Transformar a matriz produtiva nacional de modo a assegurar uma plena e eficaz mobilização dos recursos disponíveis, reduzir vulnerabilidades e estabelecer uma equilibrada distribuição setorial e territorial das atividades econômicas.
  • Adotar medidas para transformar e fortalecer cadeias de valor, assegurando uma justa distribuição de resultados entre quem as formam e otimizando os efeitos secundários sobre outros atores.
  • Neste contexto, apoiar com firmeza pequenos empreendimentos promovendo uma sólida formação de capital, sua estruturação como organizações produtivas de porte médio, o acesso a mercados, à incorporação de gestão e conhecimentos de excelência, assumindo plena responsabilidade tributária, trabalhista e ambiental.

O embasamento sócio-político da marcha concentradora

As recorrentes crises sofridas pelos países expressam graves falhas sistêmicas. É o coração do sistema global que está falhando e procura proteção para não ser arrolado pelas mesmas forças que ajudou a desatar. Deve ficar claro que seus problemas não derivam de um tipo de evolução natural das coisas mas da peculiar forma como se organizaram e funcionam as economias nacionais e o sistema global em seu conjunto. Hoje o desafio é fixar um novo rumo sistêmico e adotar uma forma mais justa e sustentável de funcionar.

Nesta perspectiva, a desigualdade não é um fator que explica por si o curso dos acontecimentos, mas é o resultado, tornado parte constitutiva, de uma trama econômica e geopolítica que leva para uma crescente concentração da riqueza e poder. Ocorre, então, que, uma vez instalada, a desigualdade se constitui em um crítico componente da dinâmica concentradora que, ao contrair a demanda efetiva, contribui para gerar os recorrentes episódios da instabilidade sistêmica.

O processo concentrador está promovido e conduzido por poderosos grupos econômicos que operam em nível global contando com a cumplicidade de elites locais, grandes complexos midiáticos, setores da política e da justiça, usinas de pensamento estratégico e centros universitários supostamente de excelência.

Diante dessas forças, batem-se sociedades desconcertadas ou intimidadas pela ferocidade com que são agredidas. Seu acesso à informação do que realmente acontece está seriamente limitado; a interpretação de fatos e dos processos subjacentes vem condicionada por um pensamento hegemônico que impõe suas próprias perspectivas, critérios e valores. Nessas condições, não é simples procurar transformações substantivas e, não obstante, cabe a cada sociedade assumir os desafios e encarar a espinhosa trajetória de se informar, compreender, alinhar a diversidade de interesses das maiorias, organizar-se para atuar e acessar ao poder de decisão.

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